sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Elegia Ex



a ideia
de morte
faz forte a ideia
de vida. e
faz fraca a ideia
de vida.
despedaça a concepção
da ideia
de vida.
fomenta, em agouro
a ideia
de vida
suspensa,
como todos.

Para o Nuno França



Maria Fernandes
20.03.2014

Pára onde a Ode à Cidade Rosa?



Cannon Street - Birmingham, UK
pára onde o fio condutor
da contuda inerente
à forma criativa, a que
nos desnuda?


pára onde o suspiro
da corrente vai-e-vem
escavadora de planos
de sentido nulo e fulo?


pára onde a ode
à cidade rosa e aos
dias últimos do retorno
sereno à rocha?


há um rosto vadio
a cada marulhar de dedos
nos papéis da minha sina.


páram onde as palavras?






Maria Fernandes
16.11.2014

da evolução da casa:

- seguramo-la pelo corno até ao vislumbre de constelações no mar que aniquilam o horizonte;
- domamo-la nos dias primeiros e somos depois embutidos na sua forma de recobro, paz e   sorrisos;
- damos-lhe luz e ar e vento para que nos amorne em noites frescas;
- soltamos aos cantos fetos de fé e outros de aromas;


e assim, a cada lento arder do dia, se faz o Lar.


Maria Fernandes

30.08.2014

domingo, 16 de novembro de 2014

A Terra Desolada, TS Eliot







“Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse oculis meis vidi
in ampulla pendere, et cum illi pueri dicerent: Σιβυλλα
τι θελεις
; respondebat illa: αποθανειν θελω.”


For Ezra Pound
il miglior fabbro.




1. O Enterro dos Mortos


Abril é o mais cruel dos meses, respirando
Lírios pela terra morta fora, misturando
Memória e desejo, envolvendo
Raízes inertes na chuva fresca.
O Inverno manteve-nos quentes, cobrindo
A terra na neve do esquecimento, alimentado
A vida frouxa com tubérculos secos.
O Verão surpreendeu-nos, vindo do Lago Starnberg
Com um aguaceiro; parámos na colunata,
E fomos para a luz do sol, para o Hofgarten,
E bebemos café, e falámos durante uma hora.
Bin gar kine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
E quando éramos crianças, hospedados no palácio do arqui-duque,
Do meu primo, ele levou-me a passear num trenó,
E eu tinha medo. Ele disse, Marie,
Marie, segura-te bem. E lá fomos.
Nas montanhas, lá nos sentimos livres.
Leio, a maior parte da noite, e vou para sul no inverno.


Que raízes esgravatam a terra, que ramos crescem
Pelo amontoado de rocha fora? Filho do homem,
Não podes dizer ou adivinhar pois conheces apenas
Um amontoado de imagens partidas, onde bate o sol
E a árvore morta não abriga, o grilo não alivia
E da pedra seca não há o som da água. Apenas
Há sombra debaixo desta rocha rubra,
(Vem para debaixo da sombra desta pedra rubra),
E mostrar-te-ei algo diferente tanto
Da tua sombra pela manhã a passos largos atrás de ti
Como da tua sombra ao crepúsculo crescendo para te encontrar;
Mostrar-te-ei medo numa mão cheia de pó.
Frisch weht der Wind
Der Heimat zu,
Mein Irisch Kind,
Wo weilest du?
Há um ano deste-me jacintos pela primeira vez;
Chamaram-ma a rapariga-jacinto.”
- Ainda assim, quando voltámos, tarde, dos jardim
dos jacintos,
Os teus braços cheios e o teu cabelo molhado, eu não podia
Falar, e meus olhos falharam, não estava
Nem vivo, nem morto, e não sabia nada,
Olhando para o coração de luz, o silêncio,
Oed’ und leer das Meer.


Madame Sosostris, famosa clairvoyante,
Estava muito constipada, contudo
É sabido que é a mais sábia mulher na Europa,
Com um herege baralho de cartas. Esta, disse ela,
É a tua carta, o Marinheiro Fenício afogado,
(Estas são as pérolas que eram os seus olhos. Veja!)
Cá esta a Belladona, a Senhora das Rochas,
A senhora das ocasiões.
Aqui está o homem das três costelas, e aqui a Roda,
E aqui está o mercador ciclope, e esta carta,
Que está em branco, é algo que ele carrega às costas,
E que estou proibida de ver. Não encontro
O Enforcado. Tema a morte pela água.
Vejo multidões de pessoas, andando à volta num anel.
Obrigada. Se encontrar a cara Mrs. Equitone,
Diga-lhe que trago o horóscopo eu mesma:
Tem-se de ser tão cuidadoso hoje em dia.


Cidade Irreal,
Debaixo do nevoeiro castanho de uma madrugada de inverno,
Uma multidão fluiu sobre London Bridge, tantos,
Não pensei que a morte houvesse desfeito tantos.
Suspiros, curtos e irregulares, eram exalados,
E cada homem de olhos fixos nos pés.
Fluía pela colina cima e por King William Street abaixo,
Para onde Saint Mary Woolnoth guarda as horas
Com um som morto na última badalada das nove.
Então vi alguém que conhecia, e parei-o, gritando: “Stetson!
“Tu que estavas comigo nos navios em Mylae!
“Aquele cadáver que plantaste o ano passado no teu jardim,
“Começou já a refilar? Já floresce este ano?
“Ou terá a geada repentina perturbado seu leito?
“Oh, mantém o Cão longe da cerca, esse que é amigo dos homens,
“Ou com as unhas irá desenterrá-lo de novo!
“Tu! Hypocrite lecteur! - mon semblable, - mon frére!”



Tradução livre: Maria Fernandes