quinta-feira, 20 de abril de 2017

Hora (sexta)



a Hora mansa e crua
            ocorre e

o cemitério escasseia já terra e
            mortos pululam amiúde
            deste lado das ondas em brasa

eis o amor primeiro

eis a dor última

desde aí, teus olhos
            são esgares

não me olhes, não me olhes
é que esta - não sou eu

(eu, sendo eu, agora mesmo
no supra-momento do olhar
das pessoas-memórias)

afaga-me afasicamente
o rosáceo e suave
          odor da morte

nisto, a infância
          perene e muda
aterrando (sobre) todos em volta
ungindo o ar com dedos pálidos
desenhando a cruz que todos trazem
balindo cangas de bichos falantes
e missais e turíbolos
e círios meio derretidos

nós – acenando à falsa fé dos dias

[ p a r a r   p a r a   r e ( i n s ) p i r a ç ã o ]

fui-me de Hora em punho
pelo limiar do ocaso
do dia velado

um recorte
da visão das lápides
         já em branco

os rostos vivos dos mortos
         sem nome nem dias

nem anos

são coisa nenhuma ao
paradoxo incerto e baptismal
do tempo em que não respirei

- aqui.




Maria Fernandes

20.04.2017









sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Só o moirão o é



não é mais possível
entregar a esse laivo e esgar
a fecunda revolução do ser

(a cada rodopio
gangorreal
eu e tu
em cada
segundo
impossíveis)

ainda que
o corpo almeje
saber (cheirar?)

(assim, assim
como é certo que o seja)

e almeje
amainar ventos
e
acolher ímpetos

(assim, assim
como é certo que o seja)

podia ser
eu
o Cabo final:
- O bastante

só o moirão
só o moirão o é.


Maria Fernandes
06.01.2017

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Palavras Mortas

ficou escrito

que nada disto
o que hoje
exala do ser
nos poderia salvar

- só tu e eu em limbos
sarapintados, êxodos escritos

e talvez que numa qualquer






 





plataforma particular

se possa deixar enrolar a
parda cinza das noites
- todas -
em que se cruzam
iradas ondas em desaforo
contínuo uníssono

(dá-me algumas
das tuas rochas roladas
e teço-te um xaile-volúpia)

eu, que





 



resisto se me deres uma janela,

declaro agora a evidência
da impossibilidade
de apoteose
- havendo todos os testes falhado,
restará
a ruína
do emaranhado céu
em que jazem
os cadáveres todos
de certas
palavras
ditas




 blue velvet

ainda que alma
alguma tal creia,
as palavras mortas,
por certo, lá estarão
no exímio instante
em que embutida
no imenso tudo
emerjo à tona
da boca do teu cais



sem nome

e desde o teu cimo
vejo as sinfonias-rodopio
de toda e cada uma delas
a meus pés
- a nossos pés.
escrevo-lhe o nome:
um breve e reles





 untitled

bastará para denominar
o limbo informe
da existência incólume
que hoje somos

(dúzia e meia de rabiscos
no chão desolado
da nossa ausência)




 (09.05.2016)




Maria Fernandes
Fotos © Fedra Espiga Pinto
publicado em "Perspectivas", in Diários do Umbigo, Umbigoº Magazine


domingo, 11 de dezembro de 2016

Intro-Retrato

© Maria Fernandes
“Ei-la, que se assume”

como a mais divina graça
da sua própria História
- una e individual -

com a fé inesperada
da ciência outonal
- junta e proclamada -

com a força do peito
quente e feroz

com a raiva de todas
as vigílias estelares

com o corpo
(com o corpo
ao manifesto
conceptual
à cabeça
dos mestres)

- no seguimento do apreender a Palavra pensada, o d e s g o s t o de anãopoderdizer


Maria Fernandes
(11.12.2016)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Lamps



vai pegar lume















e na face de cada homem
a estupefacção 
de não saber
se cá arde ou lá



porque tenho de ir














a um qualquer sítio
para além do odor a ócio
que me traz a nuvem
deste cansaço



entre o princípio e o fim



e que o contrário clamar
não poderá
- jamais! -
ter o apocalíptico
gosto acre
de cada perda
a cada penumbra
e a cada
aurora



 luz indirecta














sobre quem
directamente
projectas
a indelével
existência de ti?




paisagem in(corpo)rada perto demais




não insistas na ténue
mancha da luz
que incauta
 nos beija o cerne

e abandona




waiting for dark night









and as for the anger
let it spread out
along evergreen dreams

- no lamp is good enough
to make us love
any passing days

being so - nothing left
to be thought



(22.03.2016)


Maria Fernandes
Fotos © Fedra Espiga Pinto

publicado em "Perspectivas", in Diários do Umbigo, Umbigoº Magazine




César

Trazia a vida que não a sua
- repetia-o mil vezes -
névoa nos olhos à medida
da caminhada
por dentro
da casa-redoma 

Maria Fernandes
(2015)

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

To a Place

poema criado para o projecto PLACE - TRATUÁRIO que resultou em "FROM A PLACE - tudo à volta uno e ninguém saiba onde está", de Sara Rodrigues


do lugar aquoso
da rocha viva
onde se lavra
a raiva
da raiz humana
jamais nascida:

- sei que não sei hoje mais
que o leve sopro ido e volvido
de cada marulhar de onda.

há no ser do lugar
a canga de se
saber achado

houvera alguma fé
e a fé
ter-se-ia acabado.

ainda que:

(within this ward
no soul
is bright enough
as in order to
sustain
facts and figures
moutains are high
though quarries
grow empty
and sins die hard
and still
we all wave up
to a place
that was never
gone)

- tudo à volta uno -
e ninguém saiba onde está.



Maria Fernandes
(21.02.2016)


http://www.place-projects.com/place--tratuario.html