terça-feira, 25 de março de 2014

Conforme Escrito




Terra, terra,
Cavalgando o teu carrossel
Até à extinção,
Direita às raízes,
Engroçando os oceanos como gravy,
Purulenta nas tuas cavernas,
Transformas-te em latrina.
Tuas árvores são cadeiras retorcidas.
Tuas flores gemem ao seu reflexo,
E choram por um sol que não use máscara.

Tuas nuvens usam branco,
Tentando ser freiras
E oram novenas ao céu.
O céu é amarelo de icterícia,
E derrama seus veios nos rios
Onde o peixe se ajoelha
Para engolir pêlo e olhos de cabra.

E em tudo, eu diria,
Se estrangula o mundo.
E eu, a cada noite na cama,
Ouço os meus vinte sapatos
Conversar sobre isso.
E a lua,
Debaixo do seu negro capuz
Cai do céu a cada noite,
Com sua boca vermelha e esfomeada
Para sugar minhas cicatrizes.

Anne Sexton

tradução: Maria Fernandes



Poeta da Ignorância



Talvez a terra flutue,
Não sei.
Talvez as estrelas sejam pequenos recortes
Feitos por tesouras gigantes,
Não sei.
Talvez a lua seja uma lágrima congelada,
Não sei.
Talvez Deus seja uma voz profunda
Ouvida por surdos,
Não sei.

Talvez eu seja ninguém.
Verdade que tenho um corpo
E dele não posso escapar.
Gostava de poder voar para fora da minha cabeça,
Mas isso está fora de questão.
Está escrito na tabela do destino
Que estou aqui presa nesta forma humana.
Sendo esse o caso
Gostaria de chamar a atenção ao meu problema.

Há um animal dentro de mim,
Que me aperta o coração,
Um enorme caraguejo.
Os médicos de Boston
Meteram mão à obra.
Tentaram usar bisturis,
Agulhas, gases venosos e afins.
O caranguejo mantém-se.
É um grande peso.
Tento esquecê-lo, vou aos meus afazeres,
Cozinho os bróculos, abro os livros fechados,
Escovo os dentes e arrumo os sapatos.
Tentei rezar
Mas ao rezar, o caranguejo aperta ainda mais
E a dor aumenta.

Tive uma vez um sonho,
Talvez era um sonho,
Em que o caranguejo era a minha ignorância de Deus.
Mas quem sou eu para acreditar em sonhos?

Anne Sexton

tradução: Maria Fernandes

sexta-feira, 21 de março de 2014

Destination: Poetry

21.03.14
 
Today is the day of the foreword.
The past word in past tense
Struggles today –  the foreword day
To become actual and present and real
As present and real it is. And actual it cannot be
As today it is known to be the day
The miserably glorious day – of the foreword.

Introduction to madness, blue prelude cushion
Tearing us down in words of joy
Waves today as this is the day of all
That it cannot be actual for unreal it breathes
As the foreword leads to blooming airs
Blooming as it should be – as it is not,
Nor was meant be today – the blooming prelude day.

And when the newest daffodils are able
To chant and a new born jack-in-pulpit
Spits in the face of the dark mask once described
In today’s scope, in the foreword, predicting
A death, declaring word-springs, world-springs,
A luxury prologue prophecy – a heat inside
And a new poem rises as the last one dies.



Maria Fernandes

sábado, 15 de março de 2014

nova crónica do Norberto



Nas horas mortas em que me vai e vem o teu nome (o teu mesmo nome que tão poucas vezes me atrevi a pronunciar), vens e não penso mais. Não me movo nem respiro mais. Vejo-te passar. Olhas-me. Depois não me olhas. Vais embora. 
(ter-me-ás mesmo visto? e vais mesmo?)

Passaram três dias, três horas e trinta e três minutos em que em vinte e cinco mil milhões e meio de anos demorei a perceber a tua ausência. Cheirou-me, então, a mar. A vagas bravias contra os rochedos menores do nosso apartamento. O odor de brotares umas quantas lágrimas de súplica a que me neguei render. O odor de conter outras tantas. Logo alí, quis possuir a tua ausência – possuí-la como mil vezes antes, fazê-la presente, real. Possuir a tua ausência como se a ti fosse, já que o não é. Queimar a pele sem medo da marca que me deixas em fogo. Desaguar-te, meu Delta. Banhar-te, meu escopo. Banhar-te e inundar-te de mim.

Quando descerrei os olhos era noite, o silêncio ensurdecedor e, em verdade, nunca havia chegado a verdade que te dei.

A névoa murmurou, então, promessas de solidão à minha volta. Não sei que tenho feito nem que palavras escrito. Sou um cego louco e espezinhado, deixado ao acaso numa qualquer curva da escarpa nossa, da que fiz nossa e depois chamei de nossa. Cego louco e espezinhado sem Norte de ti, sem Sul de ti. É o que sou. Um qualquer sem nenhures de ti.



Norberto Damásio


terça-feira, 4 de março de 2014

Quarta-feira de Cinzas – TS Eliot



I
Porque não espero de novo voltar
Porque não espero
Porque não espero voltar
A desejar o dom desse homem e o desígnio desse homem
Já não luto para lutar com respeito a essas coisas
(Porque estenderia as asas a velha águia?)
Porque haveria de lamentar
O poder sumido do reino habitual?

Porque não espero de novo conhecer
A débil glória da hora positiva
Porque não penso
Porque sei que não conhecerei
O único verdadeiro poder transitório
Porque não posso beber
Lá, onde florescem árvores, e primaveras correm, lá nada há de novo.

Porque eu sei que o tempo é sempre o tempo
E o lugar é sempre e apenas o lugar
E o que é real é real apenas por uma vez
E apenas para um lugar
Regozijo-me que as coisas sejam como são e
Renuncio ao rosto abençoado


E renuncio à voz
Porque não espero de novo voltar
Então regozijo-me, tendo de construir algo
Com que me possa regozijar
E rezo a Deus que tenha piedade de nós
E rezo para que possa esquecer
As matérias que comigo mesmo tanto discuto
Tanto explico
Porque não espero de novo voltar
Deixai que estas palavras respondam
Para que o que feito está, não o seja de novo
Que o julgamento não nos seja demasiado pesado

Porque estas asas já não são asas para voar
Mas apenas joeiras para vencer o ar
O ar que é agora minuciosamente pequeno e seco
Mais pequeno e mais seco que a vontade
Ensinai-nos a velar e a não velar
Ensinai-nos a ficar quietos.

Rezai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte
Rezai por nós agora e na hora da nossa morte.

II
Senhora, três leopardos brancos deitaram-se debaixo de um cedro
No fresco do dia, saciados
Das minhas pernas, do meu coração, do meu fígado e de tudo o que continha
A vazia curva do meu crânio. E Deus disse
Deverão estes ossos viver? Deverão estes
Ossos viver? E tudo o que havia sido contido nos ossos
(que estavam já secos) disseram chilreando:
Por causa da bondade dessa Senhora
E por causa do seu amor, e porque
Honra a Virgem em meditação,
Brilhamos  reluzentes. E eu que aqui estou camuflado
Oferto minhas acções ao esquecimento, e o meu amor
À posteridade do deserto e ao fruto da cabaça.
É isto que recobra
Minhas vísceras, os cordéis de meus olhos e as partes indigeríveis
Que rejeitaram os leopardos. A Senhora envolvida
Num manto branco, em contemplação, num manto branco
Deixai a testemunha dos ossos atónita de esquecimento.
Não há neles vida. Como sou esquecido
E seria esquecido, então esqueceria
Ainda que devoto, concentrado no propósito. E Deus disse
Profeça ao vento, ao vento apenas pois apenas
O vento ouvirá. E os ossos cantaram chilreando
Com o fardo do gafanhoto, dizendo

Senhora dos silêncios
Calma e serena
Devastada e erma
Rosa da memória
Rosa do esquecimento
Exausta e vivificante
Conturbada em repouso
A Rosa única
É agora o Jardim
Onde morrem todos os amores
Tormento final
Do amor insatisfeito
O maior tormento
Do amor satisfeito
Fim do infinito
Viagem para nenhum lugar
Conclusão de tudo
O que é inconclusivo
Discurso sem palavra e
Palavra de nenhum discurso
Graças à Mãe
Pelo Jardim
Onde morrem todos os amores.

Debaixo de um cedro os ossos cantaram difusos e brilhantes
Estamos felizes por estar dispersos, fizemos pouco bem uns aos outros,
Debaixo de uma árvore no fresco do Dia, com a bênção da areia,
Esquecendo-se de si próprios e uns dos outros, unidos
Na calmaria do deserto. Esta é a terra que
Dividiremos por lotes. E nenhuma divisão ou unidade
Interessa. Esta é a Terra. Temos a nossa herança.


III
À primeira volta da segunda escada
Virei-me e vi mais abaixo
A mesma forma retorcida no corrimão
Sob o vapor do ar fétido
Lutando com o demónio das escadas que usa
O falso rosto da esperança e do desespero.

À segunda volta da segunda escada
Deixei-os contorcendo-se, fi-los menores;
Não havia mais rostos e a escada estava escura,
Húmida, desdentada, como a boca babosa e sem conserto de um velho
Ou a goela dentada de um tubarão idoso.

À primeira volta da terceira escada
Havia uma janela em fenda inchada como um figo
E para além do pilriteiro em flor e de uma cena de pasto
A figura de costas vestida de azul e verde
Encantou o apogeu da vida com uma flauta antiga.
O cabelo disperso é doce, cabelo castanho sobre a boca distendida,
Cabelo castanho e lilás;
Distracção, música de flauta, paragens e degraus da mente pela terceira escada,
Desbotando, desvanecendo; força além da esperança e do desespero
Escalando a terceira escada.


Senhor, não sou digno
Senhor, não sou digno
                              
 Mas dizei uma só palavra.


IV
Que caminhou por entre a violeta e a violeta
Que caminhou por entre
Os vários renques de verdes vários
Passando a branco e a azul, nas cores de Maria,
Falando de coisas triviais
Em ignorância e em consciência de eterno pesar
Que se moveu a meio de outros e que estes caminharam
Que fez então fortes as fontes e frescas as primaveras.
Fez fria a rocha seca e firme a areia
Em azul de espora, azul da cor de Maria,
Sovegna vos

Aqui estão os anos que passaram entretanto, afastando
Para longe violinos e flautas, restaurando
A que se move no tempo entre o sono e o despertar, vestida de
Luz branca, nela embainhada, dobrada.
A caminhada dos novos anos, restaurando
Através de uma nuvem clara de lágrimas, os anos, restaurando
Com um novo verso a velha rima. Redime
O tempo. Redime
A visão não lida no sonho maior
Onde unicórnios-jóia puxam um ataúde dourado.

A irmã silenciosa velada em branco e azul
Entre os teixos, atrás do jardim deus,
Cuja flauta  ofega, inclinou a cabeça, anuiu mas não disse palavra.
Mas a fonte brotou e o pássaro cantou
Redime o tempo, redime o sonho
O sinal da palavra não ouvida, não dita.

Até o vento abanar mil suspiros deste teixo

E depois disto o nosso exílio.


V
Se a palavra perdida, perdida for, se a palavra gasta, gasta for
Se a não ouvida, não dita
Palavra for não dita, não ouvida;
É ainda a palavra não dita, a Palavra não ouvida,
A Palavra sem a palavra, a Palavra por entre
O mundo e para o mundo;
E a luz brilhou na escuridão e
Contra a Palavra, o mundo inquieto ainda rodopiante
Pelo centro da Palavra silenciosa.

                Oh meu povo, que te fiz eu

Onde será a palavra encontrada, onde irá a palavra
Ressoar? Não aqui, não há silêncio que chegue
Não no mar ou nas ilhas, não
No continente, no deserto ou em terra tropical,
Para aqueles que caminham na escuridão
Tanto de dia como de noite
O tempo certo e o lugar certo não é aqui
Não há estado de graça para os que evitam o rosto
Não têm tempo de se alegrar aqueles que caminham entre ruído e negam a voz

Irá a velada irmã rezar por
Aqueles que caminham nas trevas, que Te escolhem e que se Te opõem,
Aqueles dilacerados no chifre entre estação e estação, tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, aqueles que esperam
Nas trevas? Irá a velada irmã rezar
Por crianças no portão
Que se não irão embora e não podem rezar:
Rezai por aqueles que escolhem e se opõem
               
Oh meu povo, que te fiz eu.

Irá a velada irmã por entre as delgadas
Árvores de teixo rezar por aqueles que a ofendem
E estão horrorizados e não se podem render
E afirmam antes do mundo e negam entre as rochas
No último deserto entre as últimas rochas azuis
O deserto no jardim, o jardim no deserto
Da aridez, cuspindo da boca sementes de maçã murchas.

                Oh meu povo.


VI
Ainda que não espere de novo voltar
Ainda que não espere
Ainda que não espere voltar

Ondulando entre o lucro e o prejuízo
Neste breve trânsito onde os sonhos cruzam
A sonhada penumbra entre o nascimento e a morte
(abençoa-me, pai) ainda que não deseje desejar estas coisas
Desde a ampla janela com vista para a costa de granito
As velas brancas ainda voam mar adentro, mar adentro voando
Asas intactas

E o coração perdido endurece e se alegra
Nas vozes do lilás e do mar perdido
E o espírito fraco apressa-se na revolta
Que a curvada haste dourada e o cheiro do mar perdido
Se apressa a recuperar
O grito da codorniz e o rodoppio da tarambola
E o olho cego cria
As formas vazias por entre os portões de marfim
E o odor renova o sabor salgado da terra arenosa

Este é o tempo de tensão entre o nascimento e a morte
O lugar da solidão onde três sonhos atravessam
Rochas azuis
Mas quando as vozes sacudidas do teixo partem
Deixai outro teixo ser sacudido e responder.
Irmã abençoada, mãe sagrada, espírito da fonte, espírito do jardim,
Não permitas que nos desdenhemos com falsidade
Ensina-nos a velar e a não velar
Ensina-nos a ficar quietos
Mesmo entre essas rochas,
Nossa paz na Sua vontade
E mesmo entre essas rochas
Irmã, mãe
E espírito do rio, espírito do mar,
Não permitas que me aparte

E que chegue a Ele o meu grito.



Tradução: Maria Fernandes