sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Dos Locais e das Cidades de Casa e de Lá – Funchal


Diz que é do Mar e do ser Ilhéu que surgem
Na alva calçada dessa cidade os gritos ululantes do Imo poético,
Que caravelas em séculos idos trouxeram trovadores de corte,
Clamam ora por tinta e papel onde jorrar versos.

(lugares velhos sempre inspiram,
olha, este inspira mares e vagas, e vagares)
No verde bretão, sonhei as cantarias das esquinas desta cidade
­- Sonhei-as como aos corvos circundantes, atacadores de gatos.
­Quando parti, levei ruas azuis e amarelas sarapintadas.
Trouxe, ora volvida, maneiras suaves, palavras leves, soltas,
Douradas pelo sol que inunda a Cidade de nascente a poente
Do sol que inunda a Cidade em largos lagos espraiando concomitantes,
Áureas de onde crescem outros sóis pequeninos, sementes deste poema esdrúxulo.

Esta é a cidade-rosa que em lusco-fusco se afunda.

Onde ocasos-bruma evocam a invernia do fim dos ciclos,
Renova-se a cada Outono a foz do rio inóspito do almejar:
- os rostos fitam ainda o chão tosco debaixo do pé desnudo,
com Senhores - outros, os colonos - outros, as maleitas – novas,
desesperos – tantos.

Esta é a cidade-rosa que em lusco-fusco se afunda.

Que lhe faltam as auréolas de ti, as imponentes torres de badalos
de ti,
as polidas lajes alvas à calçada lusa se assemelham – mudez metafísica,
e sei-me não mais perdida que achada

(na languidez desta aurora a causa do sol guia-me de volta ao Rochedo)

Da cidade rosa pela arriba fora, de pés banhados de sal marinho
lambe-te a orla do cais da partida – a hora é mansa e oblíqua em nós.
Trouxe nos braços a cor das noites aturdidas
em que, descalça e imberbe, murmuro a rocha rolada.

Fiz do horizonte a estreita mancha de ti, a imagem
do casario lançado à encosta, rastejante pelo verde
de draco sangue evadido – eis, ora, a tarde lasciva sobre ti.

Ei-la, pois, à cidade rosa que em lusco-fusco se afunda.
Ei-la importante, orgulhosa da esquina que os mundos dobram.
Ei-la, capital em seu cais, ei-la mestra e pupila,
Ei-la – ela, que me concebe a aniquila.

Esta é a cidade rosa que me ilumina, e em luso-fusco se afunda.

Não entrego as armas, não entrego as armas:
- limpo-as, a guerra só agora começa.


Maria Fernandes




foto: MF







segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Parker Pen

Escrevias, escorreita,
de Parker em punho.

Os demónios que
te abandonavam pela ponta
da tinta desenhando
a forma
do teu sonho,
a completa lânguidez
da tua sombra-sorriso.

De lágrima em
riste, escrevias
a vã hora do
queixume
morno e brando
de cada copo de vinho
ao entardecer
dessas paredes
brancas onde
fantasmas
de genitais
mortos gritavam
que te lhes juntasses.

Mas eras Joan D'Arc e
fazias rolar cabeças
só à força
de uma Parker Pen,
nem Ana, a Louca
ousáva desafiar-te
sorrias, modelando
sob o flash
do teu monstro interior

e o médico insano
te dizia o quão úteis eram os
milhares de vocábulos
de teus dedos emanados

chegaste, ainda, a achar
talvez fosses leda e sana

e enquanto
te esvaías em gás
soubeste bem
que uma Parker
que te comandava a gana.

Para Anne Sexton


Maria Fernandes
(29.11.2014)





Decapitação a Fernando Pessoa

Dizias, sapiente, que se à Poesia
Photo: Wikipedia
Se dá, a mais nenhum amor se deve
Que não pode um homem ser Génio em tudo
Que a Arte merece o derradeiro suspiro
No morno consolo das madrugadas sós.


Sabias, por dentro, que não
Tinhas paixão para tudo, e que a
Que restava, a essa força da Palavra a darias.
Querias, ah! Tu querias ser D. Sebastião
Ou um Salazar íntegro e triunfal,


(Um Sá Carneiro que morreu novo,
dirias hoje).


Quando Marialva te cortejou e lhe acedeste
Ao aceno traquina com travo da Ilha,
Foi com a vaidade mesma que escreveste
Por Crowley, The Wickedest Man in the World


E dos gracejos gotejantes do Desassossego,
Suponho, tua paixão primordial, e que os
Pensavas pelas ruas da menina e moça abaixo
Embriaguez de ideias, só para seres – perfeito.
Para seres só e uno e unicamente da Palavra.


- Tua pouca paixão não chegaria a uma mulher
Amavas só a ideia tua de ti mesmo
Duvidando do real amor, por este poder ser só uma ideia
A inconcretizável, por de irreal se tratar.


Com medo de seres pouco em um
Fizeste de ti inúmeros, nascidos de constelações várias
Ostentando pulsos diversos, risos e sonhos dispersos
Iguais, todos, na Máscara de fingimento que
Lhes impunhas – a única que te anunciava
O rosto de todas as manhãs em que despertávas
Incrédulo do novo dia no ofício da tua eternidade.


Tu soubeste               o significado do conceito


                  exímio
antes


           de este


o ser.


Não chegaste a experimentar, contudo,
O sopro novo que em Letras lusas se abateu.
Experimentarias tu, Ò Senhor dos 1000 Eus,
Dividir a tua pouca paixão pelo espaço sideral,
Conexão de sintaxes em formas lineares de sons?


Trago a paixão em torvelinhos pelo ar – atiro-a à alvura de telas
Penso-te os versos nas cantarias da cidade do poente rosa
Sei que receaste ser menor que Eliot, não te culpo por tal.
Usáste da máscara de teus Outros para seres tu, Grande.
Ou isso, ou eras louco. Ou então seremo-lo todos
Operários da palavra que depois de ti usaram
De escassa paixão atirada ao derradeiro suspiro
No morno consolo das madrugadas sós.




Maria Fernandes
29.11.2014

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Elegia Ex



a ideia
de morte
faz forte a ideia
de vida. e
faz fraca a ideia
de vida.
despedaça a concepção
da ideia
de vida.
fomenta, em agouro
a ideia
de vida
suspensa,
como todos.

Para o Nuno França



Maria Fernandes
20.03.2014

Pára onde a Ode à Cidade Rosa?



Cannon Street - Birmingham, UK
pára onde o fio condutor
da contuda inerente
à forma criativa, a que
nos desnuda?


pára onde o suspiro
da corrente vai-e-vem
escavadora de planos
de sentido nulo e fulo?


pára onde a ode
à cidade rosa e aos
dias últimos do retorno
sereno à rocha?


há um rosto vadio
a cada marulhar de dedos
nos papéis da minha sina.


páram onde as palavras?






Maria Fernandes
16.11.2014

da evolução da casa:

- seguramo-la pelo corno até ao vislumbre de constelações no mar que aniquilam o horizonte;
- domamo-la nos dias primeiros e somos depois embutidos na sua forma de recobro, paz e   sorrisos;
- damos-lhe luz e ar e vento para que nos amorne em noites frescas;
- soltamos aos cantos fetos de fé e outros de aromas;


e assim, a cada lento arder do dia, se faz o Lar.


Maria Fernandes

30.08.2014

domingo, 16 de novembro de 2014

A Terra Desolada, TS Eliot







“Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse oculis meis vidi
in ampulla pendere, et cum illi pueri dicerent: Σιβυλλα
τι θελεις
; respondebat illa: αποθανειν θελω.”


For Ezra Pound
il miglior fabbro.




1. O Enterro dos Mortos


Abril é o mais cruel dos meses, respirando
Lírios pela terra morta fora, misturando
Memória e desejo, envolvendo
Raízes inertes na chuva fresca.
O Inverno manteve-nos quentes, cobrindo
A terra na neve do esquecimento, alimentado
A vida frouxa com tubérculos secos.
O Verão surpreendeu-nos, vindo do Lago Starnberg
Com um aguaceiro; parámos na colunata,
E fomos para a luz do sol, para o Hofgarten,
E bebemos café, e falámos durante uma hora.
Bin gar kine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
E quando éramos crianças, hospedados no palácio do arquiduque,
Do meu primo, ele levou-me a passear num trenó,
E eu tinha medo. Ele disse, Marie,
Marie, segura-te bem. E lá fomos.
Nas montanhas, lá nos sentimos livres.
Leio, a maior parte da noite, e vou para sul no inverno.


Que raízes esgravatam a terra, que ramos crescem
Pelo amontoado de rocha fora? Filho do homem,
Não podes dizer ou adivinhar pois conheces apenas
Um amontoado de imagens partidas, onde bate o sol
E a árvore morta não abriga, o grilo não alivia
E da pedra seca não há o som da água. Apenas
Há sombra debaixo desta rocha rubra,
(Vem para debaixo da sombra desta pedra rubra),
E mostrar-te-ei algo diferente tanto
Da tua sombra pela manhã a passos largos atrás de ti
Como da tua sombra ao crepúsculo crescendo para te encontrar;
Mostrar-te-ei medo numa mão cheia de pó.
Frisch weht der Wind
Der Heimat zu,
Mein Irisch Kind,
Wo weilest du?
Há um ano deste-me jacintos pela primeira vez;
Chamaram-me a rapariga-jacinto.”
- Ainda assim, quando voltámos, tarde, do jardim
dos jacintos,
Os teus braços cheios e o teu cabelo molhado, eu não podia
Falar, e meus olhos falharam, não estava
Nem vivo, nem morto, e não sabia nada,
Olhando para o coração de luz, o silêncio,
Oed’ und leer das Meer.


Madame Sosostris, famosa clairvoyante,
Estava muito constipada, contudo
É sabido que é a mais sábia mulher na Europa,
Com um herege baralho de cartas. Esta, disse ela,
É a tua carta, o Marinheiro Fenício Afogado,
(Estas são as pérolas que eram os seus olhos. Veja!)
Cá esta a Belladona, a Senhora das Rochas,
A senhora das ocasiões.
Aqui está o homem das três costelas, e aqui a Roda,
E aqui está o mercador ciclope, e esta carta,
Que está em branco, é algo que ele carrega às costas,
E que estou proibida de ver. Não encontro
O Enforcado. Tema a morte pela água.
Vejo multidões de pessoas, andando à volta num anel.
Obrigada. Se encontrar a cara Mrs. Equitone,
Diga-lhe que trago o horóscopo eu mesma:
Tem-se de ser tão cuidadoso hoje em dia.


Cidade Irreal,
Debaixo do nevoeiro castanho de uma madrugada de inverno,
Uma multidão fluiu sobre London Bridge, tantos,
Não pensei que a morte houvesse desfeito tantos.
Suspiros, curtos e irregulares, eram exalados,
E cada homem de olhos fixos nos pés.
Fluía pela colina cima e por King William Street abaixo,
Para onde Saint Mary Woolnoth guarda as horas
Com um som morto na última badalada das nove.
Então vi alguém que conhecia, e parei-o, gritando: “Stetson!
“Tu que estavas comigo nos navios em Mylae!
“Aquele cadáver que plantaste o ano passado no teu jardim,
“Começou já a brotar? Já floresce este ano?
“Ou terá a geada repentina perturbado seu leito?
“Oh, mantém o Cão longe da cerca, esse que é amigo dos homens,
“Ou com as unhas irá desenterrá-lo de novo!
“Tu! Hypocrite lecteur! - mon semblable, - mon frére!”



Tradução: Maria Fernandes