sábado, 11 de outubro de 2014

Efeito Surdina



Dir-se-á do efeito surdina,
Que à medida que dizes tua vida
Invadida de poetas e poesias surdas,
Que te ajeita à noite a flanela do lençol e,
Em surdinas te diz da serenidade
De noites a cair em horizontes rosa.

Dir-se á do efeito surdina,
Que à medida que dizes tua vida
Invadida de poetas e poesias surdas,
Que te suga a pele e os poros suados e,
Em surdinas te diz das melodias
De galáxias riscadas à nossa janela.

Dir-se-á do efeito surdina,
Que à medida que dizes tua vida
Invadida de poetas e poesias surdas,
Que da geometria das constelações no mar e,
Em surdinas te desenha esquadrias
De ângulos rectos, esquadros perfeitos de mira.

Dir-se-á, dir-se-á – bem sabeis – do efeito surdina
Que à medida que dizes tua vida
Invadida de poetas e ocas - ocas, mortas e surdas poesias,
Que te faz transbordar em didascálias e
Em surdinas te lambe a pele, te esmiuça o cerne
Te lava o rosto brando de suaves, suaves murmúrios-grito.

Maria Fernandes

11.10.2014



















terça-feira, 23 de setembro de 2014

Poema a Ti

Sou uma onda a caminho
Da tua praia de algodão-doce
E vasculho na tua areia-sol
A minha lucidez.

Sou uma curva na rua onde moras.
Passas, e quando passas, trazes
À tona as canções últimas
Do concerto da minha vida passada.

Sou o cometa no teu céu nocturno
Pedes desejos à minha passagem
E indiferente da candura desssa hora
Sorrio à lua e envio-te uma viagem.

Sou a viragem a Sul que
Ousáste proclamar.
Sou o refrão que não decoráste
Ainda que o saibas em porquês
E que o saibas e não saibas em quês
E que o lembres e esqueças
E que o esqueças e escrevas.

Sou o refrão escrito, ora
Navego em pautas, navego em pautas
Solfejos da crua e una verdade
Que nos impera no âmago.

Sou a vida - eis-me.

21.09.14

Maria Fernnades

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Seguro, Charles Bukowski



a casa aqui do lado deixa-me
triste.
ambos marido e mulher acordam cedo e
vão trabalhar.
chegam a casa ao anoitecer.
têm um rapaz e uma rapariga.
pelas 9 da noite todas as luzes da casa
estão desligadas.
na manhã seguinte, ambos marido e
mulher acordam de novo cedo e vão
trabalhar.
voltam ao anoitecer.
pelas 9 da noite todas as luzes estão
desligadas.

a casa aqui do lado deixa-me
triste.
são boas pessoas, gosto
delas.

mas sinto-as a afogar-se
e não as posso salvar.

sobrevivem
não são
sem-abrigo.

mas o preço é
terrivel.

às vezes durante o dia
olho para a casa
e a casa olha para
mim
e a casa chora, sim, chora,
sinto-o.

a casa está triste pelas pessoas que lá
vivem
e eu também
e olhamos um para o outro
e os carros passam para cima e para baixo cá na
rua,
os barcos cruzam a baía
e as palmeiras acotovelam-se
contra o céu
e logo às 9 da noite
apagar-se-ão as luzes
e não só naquela
casa
e não só nesta
cidade.
vidas seguras que se escondem,
quase
paradas,
o respirar de
corpos e pouco
mais.

Tradução: Maria Fernandes


sábado, 9 de agosto de 2014

Ouro à tua vista, Charles Bukowski



peguei no meu BMW e conduzi até ao meu banco para
levantar o meu Cartão Dourado da American Express

disse à rapariga ao balcao o que
queria.
 
“você é o Sr. Chinaski”, disse
ela.

“sim, precisa de algum
documento?”

“oh não, nós conhecêmo-lo...”

deslizei o cartão bolsa dentro
voltei ao parque
entrei no BMW (já pago, e em
dinheiro)
e decidi passar na loja de bebidas
para uma caixa de bom
vinho.

a caminho, decido ainda escrever um poema
sobre toda a cena: o BMW, o banco, o
Cartão Dourado
só para lixar os
críticos
os escritores
os leitores

que preferiam muito mais os velhos poemas sobre mim
dormindo em bancos de jardim
com frio e morrendo do vinho barato e da
má nutrição.

este poema é para aqueles que pensam que
um homem só consegue ser um génio
criativo
à beira do seu
limite
ainda que nunca tenham tido
tomates para
tentá-lo.


tradução: Maria Fernandes

terça-feira, 29 de julho de 2014

Feridas auto-infligidas, Charles Bukowski


ele falava de Steinbeck e de Thomas Wolfe e
escrevia como que  entre meio destes dois
e eu vivia num hotel em Figueroa Street
perto dos bares
e ele vivia nos subúrbios num quarto minúsculo
e ambos queríamos ser escritores
e encontravamo-nos na biblioteca pública, sentávamo-nos nos bancos
de pedra e falávamos sobre isso.
mostrou-me os seus contos e escrevia bem, escrevia
melhor que eu, havia uma calma e uma
força no seu trabalho que o meu não tinha.
as minhas histórias eram sinuosas, ásperas, com feridas auto-infligidas.

mostrei-lhe todo o meu trabalho mas ele estava mais impressionado com os
meus feitos alcoólicos e com a minha atitude mundana.

depois de alguma conversa vamos à Clifton’s Cafeteria
para a nossa única refeição do dia
(por menos de um dólar em 1941)
ainda assim
gozávamos de boa saúde.
perdemos empregos, arranjamos empregos, perdemos empregos.
normalmente não trabalhávamos, imaginávamos sempre que em breve
estaríamos a receber cheques regulares da
The New Yorker, da The Atlantic Monthly e da
Harper’s.

andávamos com um gangue de jovens que não ambicionavam
coisa alguma
mas possuíam o charme dos valentes sem lei e
bebíamos com eles e lutávamos com eles e
divertíamo-nos como os diabos.


depois, sem mais nem menos, juntou-se aos Marines.
“Quero provar algo a mim próprio” foi o que me
disse.

e provou: logo após a recruta, a guerra veio e em 3 meses
estava morto.
e prometi a mim próprio que um dia escreveria um romance e que
o dedicaria a ele.

escrevi até agora 5 romances, todos dedicados a outros.

sabes, tinhas razão, Robert Baun, quando uma vez me
disseste, “Bukowski, metade de tudo o que dizes é
treta.”


tradução: Maria Fernandes