Não te sei o gosto nem o sal da pele
ainda que me banhe no teu desejo confesso
e me asfixie na tua poesia muda.
Norberto Damásio
domingo, 6 de julho de 2014
sexta-feira, 4 de julho de 2014
A Melhor Poesia é a da Burguesa
A melhor poesia é a da burguesa
A que fala de flores e florzinhas
Fala de nuvens e nuvenzinhas
De ondas e ondinhas
De ervas danadas e daninhas.
Sem dúvida que a melhor poesia
É a da burguesa de boa fala e de chá.
Da que tem amigos que os não há
Da que publica aqui porque nunca lá
Da que fica em Mi pois não sabe do Fá.
Escrevinhe-se o velho verso como
Só a burguesa o sabe fazer.
Toda a métrica e rima tem de bater
Toda a linguagem se deve saber
- em verdade, é para nada dizer.
Minta-se
e invente-se a poesia
Como de tal só a burguesa é capaz.
Encham-se páginas de heresia
Que tal ver tanto me apraz
- há uma puta de mania
que nem em aguarrás.
Maria Fernandes
domingo, 15 de junho de 2014
Só aos que o Provam e, em amor, se lhe rendem
Degusto o sol que me amadurece.
Degusto-o como se jamais antes inalasse
Seu calor ermo e atiro as vísceras
Resgatadas do gelo da Máscara –
- a antes Inerte, quer me vestiu, que
Me assolou a alma em ausência. –
Sou agora leve de Imo. E de Fado.
Degusto o sol da Rocha
Como se jamais antes rocha fosse.
Sorvo-o com os lábios colados ao
Vento desse Cabo – aos minutos primeiros
Em que surgiu o Rochedo, as mãos
latejantes
Da febre da vigília vã do Limbo
Onde mergulhei nua, absorta, heróica. –
- Sou agora a fada do meu sonho de embalo:
-
agito varinhas de condão aos anjos;
-
sorrio-lhes – e então, o sol.
- Um outro que não o que em Bretão solo
Me lambeu a pele, bafejou vago calor,
Segredou curvas de ráfia e me deixou fria,
Um outro que não esse, mas quente, com cor
Com medida, com forma – e belo.
Degusto-o e a seu cheiro terrestre – de rocha.
De Rocha de sal lambida
De Rocha que não sabe que é
Porque de si não sai, nem se mantém
Nem se olha, nem se pode olhar
Mas somente suster-se nas ânsias
Das Ilhas todas que se não vêem,
Que se não sentem porque se não podem ver.
Porque de si não lhes é possível sair –
- os anjos, em verdade, não ofertam sol
A todos os sorrisos, mas só aos
Que o provam e, em amor,
Se lhe rendem.
Maria Fernandes
14.06.2014
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Dos locais e das cidades de casa e de lá - Oxford
![]() | |
| Bodleian Library e St. Mary's Church |
Diz que é da inspiração do berço
anglo-cultural
Que se nada se tem a declarar, que
capricho serve
A ânsia de transbordar em vómito
silábico-sinfonia
O que se disse, se algo enfim se disse –
murmúrios
Das cidades de casa e de lá – o caos de
casa, onde estou,
Com a calmaria do cá, onde vivo sem estar.
(lugares novos sempre inspiram, diz-se.
olha, este não inspira lá grande coisa)
Das ondas e dos verdes em mil tons
Das rochas, dos paus em todos os marrons.
Dos teus olhos feitos água me olhavas
Aterrada e vencida, pelo canto do olho.
E eu, já sem palavras e sem voz
Ciente que estava de ti, na vez última.
Em tua forma alva enxaguo a vista.
O ouro, dádiva dos céus dos dias últimos
Empresta vida nova à forma secular da
cidade.
Em cada raio dourado, o Imo latejante no
ir - respira já o novo sopro do Rochedo Nosso.
(quando era novo este lugar, o verde das
suaves colinas
e as palavras em catadupa antes da descoberta)
O Rochedo do caos da minha paz interior
Onde já espraio o ser, o olhar, a palavra
por nascer
Sibila-me o nome ao vento atlântico.
Sibila-me o nome à corrente marítima.
Ecoa calcário na Grã Ilha de cá, onde vivo
– sem estar.
Galga prados e bosques, rios e lagos. E
cidades.
Murmura-me enfim ao ouvido o cometa
Expectante do meu contentamento.
Lambe em júbilo a forma de século das
rochas
De que se faz esta cidade, nelas se
enrosca, se aninha.
Aguarda que por elas passe, e quando passo
– em urgência de fé –
Afaga-me o rosto e a Máscara, gentil,
sorri por dentro.
Então, banho os olhos com a forma,
degusto-a, prendo-a, visceral.
Em poucos dias, reduzida a forma à imagem
E digerir então o que foi neste Imo a
metamorfose
Resultante do que operou a forma alva,
onde enxaguei a vista.
Na brancura da calçada da minha cidade,
verterei rédeas
De palavras-purpurina – à luz, imponente,
que tudo pode do Rochedo
Verei rendida a soma do roteiro na Grã
Ilha.
A saberei rica, sóbria, compacta. Salgada
de brisa, ora.
E o novo afago e o sorriso por dentro da
Máscara.
A leveza de saber que depois de engolida a
forma
O libertador acto seguinte do jorrar
silábico da Palavra Nova, ora.
Maria Fernandes
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Tu, mulher, a uma esquina fumavas
Nas manhãs azuis de mantras fumavas
a uma esquina e viste-me despertar.
Tinha os lábios secos e púrpura
quando quis dizer-te o nome.
Depositaste então em mim a tua seiva
e pude ver-te o rosto sem o estranhar.
Soube-te então nas entranhas do fumo
Que soltavas sob o ar da manhã azul.
Tu, mulher, a uma esquina fumavas.
Mulher, da falsa ideia da tua propriedade
Gemeste com a volúpia do prazer final,
em arcos que nunca soube nomear mas
pude somente ver tomar forma
Sob o peso desnudo do universo
que meneando-nos em cordas bambas
nos algemou no Limbo extra-universal
da impossibilidade etérea. E o prazer -
- real e vero - indesmentivel a cada manhã que
Tu, mulher, a uma esquina fumavas.
Norberto Damásio
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