segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

tenho no ouvido um cometa



Um rift debaixo da pele nos dias últimos e sou só arrepios.
Contorço-me na curva do ângulo do teu rosto, desenho-te os traços
Bebo-te a forma, sei-te a orla, sorvo-te o cheiro – inebrio-me.

Tenho na nuca o murmúrio extenuante de ti
No supra-momento da fundição dérmica, sei-te a voz.
Tenho no ouvido um cometa que me arrasa o equilíbrio.
Rodopio por dentro, busco lugar dentro de mim
Onde caiba Eu, feita agora esta cheia de ti, alagada de ti, rasa de tudo de ti.

Não somos extra-universais - somos Reais nesta mesma Vida.



Maria Fernandes

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Crónica do Fumador


St. Aldates St. e Town Hall - Oxford

Um frio dos diabos e atravesso a cidade. Carfax Tower, olho o relógio – há tempo para fumar antes do quarto de milha até Queen´s Lane. Chego-me ao banco encostado à parede contígua ao café brasileiro no coração de Oxford
(café brasileiro no coração de  Oxford?)
enquanto ouço todas as línguas a serem faladas nesta esquina do mundo  e sento-me nas costas do banco, ou na parte do banco que serve para encostar as costas, tanto faz. Saco do tabaco. Saco da mortalha, do filtro. Olho à volta. Todo o tempo é cinza. As pessoas, cinza também. O pavimento do passeio, todo o cruzamento da High Street com St. Aldates desde  Queen’s Street, a desembocadura da luxuriante Corn Market St., palco ao ar livre da cidade medieval, é de uma cinza mais cinza que a que me cai agora do cigarro que degusto em subtil lânguidez público-contemplativa. Detenho-me nos rostos de quem passa – rostos de todo o mundo. Rostos mais jovens que velhos, mas rostos de todas as idades, todos diferentes,
(raios, o café brasileiro tem à porta uma bandeira nacional)
muitos morenos, e penso que é Verão no hemisfério Sul, muitos curiosos, uns confusos, perdidos na imensidão de rostos balançantes, querem ver, querem chegar, querem saber, querem encontrar, muitos, normalmente os asiáticos, querem comprar – não importa o quê, comprar – e todos, todos querem fotografar.
Gosto sempre de imaginar os trajectos atribulados dos rostos da rua, tentar perceber pelas expressões os estados de espíritos, a pressa ou falta dela, a felicidade ou falta dela.
Lanço o olhar a Queen’s St. – vem a subir o pastor da Igreja Baptista com templo situado mais abaixo em Bonn Square. Costuma situar-se na zona do Westgate ou ali mesmo de frente para St. Aldates. Distribui «good mornings» sorridentes  e flyers com informação do horário dos serviços da igreja. Noto as expressões dos inquiridos. Em Oxford, existem coimas para quem atirar flyers na via pública tanto para quem recebe como para quem entrega. Por isso, cada flyer entregue tem de ser na confiança de que não será atirado na esquina mais próxima ou que depois de uma vista de olhos rápida, vá pelo menos parar ao seguinte recicling bin fora da vista do pastor, por uma questão de delicadeza, um qualquer respeito mesquinho que qualquer inglês tem intrínseco. Muitos rostos ignoram indiferentes o benfazejo cumprimento do pastor – os olhos parados, visando o caminho que seguem sem nada verem; muitos outros, pelo tal respeito-mesquinho que dizia: «thanks, I’m fine», que é como quem diz: «não quero saber dessa porcaria»; outros rostos sorriem de volta, complacentes mas não aceitam o dito papelito; outros ainda param, conversam, sorriem muito durante o diálogo, trocam rápidas idéias baptismais, imagino.
(que dirão os ultra-nacionalistas britânicos de tal demonstração de nacionalimo na porta do café? sentir-se-ão ultrajados na medida em que a sua Union Jack é que deveria estar em todo o lado – como está no topo dos edifícios, em roupas e em calçado?)
E o pastor leva todos os dias todos aqueles rostos para casa. Penso no que faz com eles à noite. Se os despeja num baú grande e velho e os esquece até ao dia seguinte. Até que os veja de  novo, lhes sorria de novo e de novo lhe passem vazios ao lado. Penso se rezará pelos rostos, se rezará para que todos se baptizem, para que tenham menos pressa, menos rugas, menos respeito mesquinho. Que faz uma pessoa aos rostos todos os dias? Mais: que faz um pastor baptista ao rostos de todos os dias? Terá sonhos em que banha rostos em  baptismo metafísico? E rezarão depois, juntos?
(que digo eu, os tipos até têm guarda-chuvas com a Union Jack!)
Depois não penso nada disso e volto decidida à minha condição de não-crente. Espezinho a ponta do cigarro antes de me embrenhar na multidão do mundo. Que se fodam as coimas.

Maria Fernandes

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock - T.S. Eliot



 
Vamos lá então, tu e eu,
Quando a noite se espalha pelo céu
Como um paciente eterizado sobre uma mesa;
Vamos lá, por certas ruas meio desertas,
Por refúgios murmurados
De incansáveis noites em hotéis baratos
E restaurantes de serradura com ostras:
Ruas que seguem como um argumento de tédio
De intenção insidiosa
Para te levar a uma arrasadora questão...
Oh, não perguntes, “O que foi?”
Vamos lá, à nossa visita.

Na sala as mulheres vão e vêm
Falando de Michaelangelo.

O nevoeiro amarelo que esfrega as costas contra o vidro das janelas
O fumo amarelo que esfrega o focinho nos vidros das janelas
Lambeu a língua nas esquinas da noite
Hesitou perante poças de esgoto,
Deixou cair no dorso a fuligem das chaminés,
Escorregou pelo terraço, deu um salto repentino,
E vendo que era uma noite suave de Outubro
Enrolou-se à volta da casa, e adormeceu.

E haverá, de facto, tempo
Para o fumo amarelo que escorrega pela rua,
Esfregando as costas contra o vidro das janelas;
Haverá tempo, haverá tempo
Para preparar o rosto para encontrar os rostos que encontramos;
Haverá tempo para assassinar e para criar,
E tempo para todos os trabalhos e dias de mãos
Que te elevam e te despejam uma pergunta no prato;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para cem indecisões
E para cem visões e revisões
Antes de tomarmos chá com tostas.

Na sala, as mulheres vão e vêm
Falando de Michaelangelo.

E haverá mesmo tempo
Para se questionar, “Atrevo-me?” e, “Atrevo-me?”
Tempo para voltar atrás e descer a escada,
Com uma careca no meio do meu cabelo –
[dirão: “Como lhe cresce ralo o cabelo!”]
O meu casaco de gala, o meu colarinho firmemente apontado ao queixo,
A minha gravata rica e modesta, mas ajeitada por um simples alfinete –
[Dirão: “Mas como lhe estão magras as pernas e os braços!”]
Atrevo-me
A incomodar o universo?
Num minuto há tempo
Para decisões e revisões que um minuto reverterá.

Pois os conheci a todos, já, conheci-os a todos
Conheci as noites, manhãs, tardes,
Medi a minha vida em colheres de café;
Conheço as vozes morrendo da queda fatal
Através da música de um quarto distante.
Então, como presumir?

E conheci os olhos, já, conheci-os a todos –
Os olhos que te fixam numa frase formulada,
E quando me formulo, alastrando-me na vertical,
Quando faço o pino e me contorço na parede,
Então como deverei começar
A cuspir todos os caroços dos meus dias e vias?
E como presumir?

E conheci os braços, já, conheci-os a todos –
Braços apulseirados e brancos e nús
[Mas à luz do candeeiro, imbuídos em cabelo castanho claro!]
Será o perfume de um vestido
Que me faz assim divagar?
Braços pousados numa mesa, ou que enrolam à volta um xaile
E devo então presumir?
E como começar?

Deverei dizer que percorri ruas estreitas no crepúsculo
E vi o fumo que saindo dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa debruçados em janelas?

Eu devia ter sido um par de garras ásperas
Cirandando pelo chão de mares silenciosos.

E a tarde, a noite dorme tão pacífica!
Suavizada por dedos longos,
Adormecida... Cansada... ou nos engana,
Estendida no chão, aqui ao nosso lado.
Deverei, depois do chá com bolos e creme,
Ter a força de forçar o momento à sua crise?
Ainda que tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Ainda que tenha visto a minha cabeça (ficando já careca) ser posta numa travessa.
Não sou nenhum profeta – e não há aqui nenhuma grande questão;
Vi o momento em que estremeceu a minha grandeza.
E vi o eterno Servo segurar-me no casaco, e esgueirar-se,
E em suma, tive medo.

E teria valido a pena, afinal,
Depois das xícaras, da marmelada, do chá,
Entre a porcelana, entre alguma conversa de tu e eu,
Teria valido a pena,
Ter mordido a matéria com um sorriso,
Ter espremido o universo numa bola
Enrolá-lo em alguma arrasadora questão,
Ter dito: “Eu sou Lázaro, venho dos mortos,
Volto para dizê-lo a todos, irei dizê-lo a todos”-
Se um de nós, ajeitando uma almofada na cabeça,
Dissesse: “Não é nada disso que quis dizer.
Não é mesmo nada disso.”

E teria valido a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Depois dos pôres-do-sol e dos pátios e das ruas polvilhadas,
Depois das novelas, depois das chávenas de chá, depois das saias que se arrastam pelo chão –
E isto, e tanto mais? –
É impossível dizer o que quero mesmo dizer!
Mas como se uma lâmpada mágica atirasse os nervos à vez contra uma tela:
Teria valido a pena
Se um de nós, ajeitando uma almofada ou atirando um xaile,
E virando-se para a janela, dissesse:
“Não é isso,
Não é nada disso que quis dizer.”

Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem é suposto que o fosse;
Sou um homem servo, um que fará
Por surgir algum progresso, começar uma cena ou duas,
Aconselhar o príncipe; sem dúvida, boa ferramenta,
Diferencial, feliz por ser útil,
Político, cauteloso, e meticuloso;
Cheio de grandeza moral, mas um pouco obtuso;
Às vezes até, um pouco ridículo –
Quase, às vezes, o Louco.

Envelheço... Envelheço...
Usarei as beiras das calças enroladas.

Deverei dividir o cabelo atrás? Atrevo-me a comer um pêssego?
Usarei calças brancas de flanela e passearei pela praia.
Ouvi as sereias cantar, uma a uma.

Não me parece que vão cantar para mim.

Vi-as cavalgar em ondas de volta ao mar
Penteando o cabelo branco das ondas encrespadas
Quando o vento sopra a água preta e branca.

Hesitámos nas cavidades do mar
Por mulheres-mar cobertas de algas vermelhas e castanhas
Até que vozes humanas nos acordam, e nos afogamos.

Tradução: Maria Fernandes