Ainda que estejas, como estás, como em verdade nunca estiveste
Ainda que tenha aqui visto realmente, cheirado, sentido realmente.
Ainda que estejas, como estás, como em verdade nunca estiveste
Sou agora o ferro com que me quis vestir. Oxido na orla do teu oceano.
Embarco em canoas de tolho que nunca chegam ao teu cais - onde cais,
Onde sem te chegar, te recolho e te afago - recolhendo-me, salvando-me.
Ainda que estejas, como estás, como em verdade nunca estiveste
Sou agora rochedo maior que esse que habitas, ou pensas habitar.
Sou agora, mais que heroína estóica e feroz arremessada a ti
- Sou agora a tela sem côr onde pintas o meu Ser, silêncio parado.
Sou agora a estrela estática do firmamento dançante
A tempestade que infante algum ousa enfrentar.
Sou o eco de tudo o jamais escrito - palavras, ritos, sinfonias, asas.
Sou a aterragem que nunca houve porque voo algum foi Real.
Ainda que te tenha aqui visto realmente, cheirado, sentido realmente.
Ainda que estejas, como estás, como em verdade nunca estiveste.
Queda-te e deixa - não venhas, já.
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
domingo, 13 de outubro de 2013
Nocturne Fog
felt the momentum
as a boiling whisper
came to me
daring
a nocturne fog.
Maria Fernandes
as a boiling whisper
came to me
daring
a nocturne fog.
Maria Fernandes
sábado, 12 de outubro de 2013
Todo o Nada
Sem pés nem
braços
Te alcanço e te
abraço.
Sem boca, sem
saliva
Sem cheiro – te sinto,
Te mastigo, te
inalo
Por toda a parte
De mim te exalo
Quando ainda tua
me dou
De cada vez que
te embalo.
Sem pés nem
braços
Sem mãos nem
coxas
Te resgato e te
guardo,
Te aqueço e te
deixo
Te louvo e
maldigo.
Sem olhos que te
sigam
Sem lábios que te
mordam
Sem tudo, com
nada de mim
- ou da Máscara, a
que Inerte
Nos seduziu,
desenvolta na noite
E nos fez novos.
E nos fez de barro branco.
O molde de nós
não cabe no
Tamanho do Tempo,
nem de espaço algum.
- Pelas costuras
da noite nos fizemos.
Maria Fernande, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
CONSTATAÇÃO VI
e todos os cordéis cósmicos me berram
os trâmites do teu respirar inconsciente.
Colei os olhos à tua cara adormecida,
decorei-te os trejeitos dos lábios púrpura dessa manhã.
Urge despertar-te, render-me ao tempo
e à evidência da decadência e impossibilidade nossas.
Antes disso, amo-te uma vez mais
e o estarrecer do teu imo-limbo
no instante em que desaguas em mim.
Depois vieram os dias seguintes. E nós neles - ermos.
Maria Fernandes,
in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)
in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Lágrima Multiforme
Difere em
densidade, o Sabor desta lágrima.
Difere no sabor à
medida que se me corre pelos lábios semi-abertos
Difere na forma,
no percurso pelo Rosto.
O Sal – este Sal
não é o mesmo.
Não posso crer
que seja a mesma.
Se de todos os
paramentos se veste, em êxtase.
Se todos os
Rostos e todas as Máscaras
Toma em seu poder
– esta disforme gota, pérola do meu atordoamento.
Como chamar a que
já foi, se
Nunca nem nome teve,
a esdrúxula.
Se me vazou, se
me secou, se me matou
- Como agora
vê-la, nomeá-la?
Se mil nomes tem
a seu bel-prazer?
Se de ti se veste
em todas as manhãs em torpor?
Cuspo o chão –
não é digno de me suster.
Prefiro pairar.
E pairando vou.
Maria Fernande, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)
domingo, 28 de julho de 2013
Do Retalho
Sempre se traz os olhos em mar.
Lembro-me, juro-o por todos os Céus e diferentes deuses, que vi aquela sombra sobre nós, à espera. Mas tu não.
Emaranho-te agora nos cabelos que entranço e que atiro depois onde antes te descansei os lábios para agora repousar os meus. Derrubada do pódio da lógica, eis-me brutalmente demolida de Verdade.
Fiquei-me por uma ou duas eternidades a contemplar a tua queda, a tua dor, a tua morte.
Rejubilei. Depois vi que estava morta. Enfim, adormeci.
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)
Aceitação
Que me vais fugir - como se jamais o houvesses feito.
Como se não te houvesses atirado ao mundo com a mesma força
Com a mesma ira, com a mesma paixao com que ávido e generoso
Quero estas raízes minhas mais bestialmente fortes que a Terra.
Que me foges - como se mais nada de mim houvesse antes fugido.
Que me vais fugir - e nisto detenho a fala.
Nao tarda que me vá. E a abrace.
Norberto Damásio,
Como se não te houvesses atirado ao mundo com a mesma força
Com a mesma ira, com a mesma paixao com que ávido e generoso
Quero estas raízes minhas mais bestialmente fortes que a Terra.
Que me foges - como se mais nada de mim houvesse antes fugido.
Que me vais fugir - e nisto detenho a fala.
Nao tarda que me vá. E a abrace.
Norberto Damásio,
Subscrever:
Mensagens (Atom)