segunda-feira, 9 de setembro de 2013

CONSTATAÇÃO VI



Como de todas as vezes em que ficas em silêncio
e todos os cordéis cósmicos me berram
os trâmites do teu respirar inconsciente.
Colei os olhos à tua cara adormecida,
decorei-te os trejeitos dos lábios púrpura dessa manhã.

Urge despertar-te, render-me ao tempo
e à evidência da decadência e impossibilidade nossas.
Antes disso, amo-te uma vez mais
e o estarrecer do teu imo-limbo
no instante em que desaguas em mim.
Depois vieram os dias seguintes. E nós neles - ermos.


Maria Fernandes,
in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Lágrima Multiforme



Difere em densidade, o Sabor desta lágrima.
Difere no sabor à medida que se me corre pelos lábios semi-abertos
Difere na forma, no percurso pelo Rosto.
O Sal – este Sal não é o mesmo.

Não posso crer que seja a mesma.

Se de todos os paramentos se veste, em êxtase.
Se todos os Rostos e todas as Máscaras
Toma em seu poder – esta disforme gota, pérola do meu atordoamento.
Como chamar a que já foi, se
Nunca nem nome teve, a esdrúxula.
Se me vazou, se me secou, se me matou
- Como agora vê-la, nomeá-la?
Se mil nomes tem a seu bel-prazer?
Se de ti se veste em todas as manhãs em torpor?

Cuspo o chão – não é digno de me suster.
Prefiro pairar.

E pairando vou.



Maria Fernande, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

domingo, 28 de julho de 2013

Do Retalho



Sempre se traz os olhos em mar.
Lembro-me, juro-o por todos os Céus e diferentes deuses, que vi aquela sombra sobre nós, à espera. Mas tu não.
Emaranho-te agora nos cabelos que entranço e que atiro depois onde antes te descansei os lábios para agora repousar os meus. Derrubada do pódio da lógica, eis-me brutalmente demolida de Verdade.
Fiquei-me por uma ou duas eternidades a contemplar a tua queda, a tua dor, a tua morte.
Rejubilei. Depois vi que estava morta. Enfim, adormeci.

Maria Fernandes,
in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

Aceitação




Que me vais fugir - como se jamais o houvesses feito.
Como se não te houvesses atirado ao mundo com a mesma força
Com a mesma ira, com a mesma paixao com que ávido e generoso
Quero estas raízes minhas mais bestialmente fortes que a Terra.
Que me foges - como se mais nada de mim houvesse antes fugido.
Que me vais fugir - e nisto detenho a fala.

Nao tarda que me vá.
E a abrace.

Norberto Damásio,

CONSTATAÇÃO V





Como se amar-te não fosse estar aqui ou estar aí - como se bastasse
 ser esta e tu esse para, loucos e sem esperança, trilharmos ainda,
cegos e mundanos, os ínfimos corredores da insuportável consciência
de perfeição molecular extrasensorial arrasadora
(que é o que se dá a cada rural sentir da tua mão invisível
 e quente e o rápido instante em que recolho as pálpebras.)
Como se bastasse ser quem se é, não esta ou outra ou outro
ou parecido ou o raio que o parta em vinte e cinco mil de mim para ti, se assim for.
Onde se estiver, se está. Onde se sentir, se está.
- Como se ainda não chegasse.

Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

Numa Tarde de Sol (em que me deixei espreitar)



17.07.13

Jorro agora em papel os sentidos quando se
Esvaem dogmas  em olas de pedantes.
Os versos, incipientes, sei-os mais que idos
Ribeiro abaixo rolam, absurdos e moucos

E em toda a medida do espaço
Senta-se a lógica, toda ela vida.
A Vara não me repara, nem me repasta.
Mastiga-me a incongruência, por onde passo
E me abandona assim – meia morta e despida.

Maria Fernandes,
in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

(revisto em 11.01.2014)