sábado, 13 de julho de 2013

Do Dia que Corre



Desperto quente,
Na tecitura das últimas manhãs infernais e
Urge que me dispa de silêncio.
Conta-me, hoje, do abraço meu
Que não sentiste durante esta noite.
Fala-me dos meus dedos que te não
Deslizaram a pele, nem o corpo
Nem os pelos do peito.
Conta-me do Mar que te lambeu em
Salmoura-Norte – como o vem fazendo
Eternamente à tua Mãe-escarpa.
Conta-me das lágrimas que
Te fez esquecer uma vez mais.
- Afinal é um novo dia.

Conta-me agora, que estou esbaforida,
Agora, que vai já o dia mingando
E a qualquer hora hás-de chegar
Às paredes azuis mudas – olhar-te-ão
E talvez me penses. E não estou.
Como nunca estou.

Maria Fernandes,
in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

Declaração




Declaração

Eu, Norberto – um homem novo vindo dos infernos, navego agora à ilharga do vale de onde me fiz e  onde me esculpo para sempre.
Eu, que guerreio e atiro os braços ao ar em força e em ânimo, vomito o âmago em asco quando me ferem e traem os  Olhos circundantes da perniciosa Vara que finge pasto para só mais pasto contrair...e engolir. E esmiuçar. Tragar a terra e o povo como se terra e povo não fossem intragáveis e indemolíveis!
Eu, Norberto Damásio, 39 anos, de vale esculpidos – não vendi nunca a coluna a demónios da Terra!

Norberto Damásio

DO SAL DO MAR

A frescura que
tantas vezes
dentro de mim falta
anseio abraçar
ao atirar-me
em teu Sal,
ó Mar!

Da escarpa,
minha mãe,
que lambes
eternamente
e dás sabor e côr,
me debruço em ti
– vejo-me.


Norberto Damásio

COORDENADAS



Passeamos os âmagos em cidades Antigas.
Tão Antigas como o suspiro que
Se verte em passadas largas
Por passeios ancestrais.

Jorramos palavras na Teia do Hoje
Como quem semeia o joio do Amanhã.
Não há forma de se Ser o que se não é
Ainda que se banhe o odor em sombra vã!

 

Maria Fernandes

Armadura


Decresce o tempo para que, enfim,
Me possa urdir da armadura que é
Há muito, muito ida - talvez até possa
Usar a Inerte Máscara
Essa antiga cara que usei, que sempre usei.

Derrete o tempo e tento que tudo se
Desfaça em ondas da ideia de não-Ser.

Decresce o tempo e comprimo a
Essência aos mínimos do tolerável.

Desaparece, descarado, o tempo
E já na tua pele me confesso insanável.

- Eu não sou a guerreira de todos os tempos, sou-o apenas do Nosso.

  



Maria Fernandes,
in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

24.11.12

Decidi ir na direcção que diz: “Informações sobre o tamanho d’Isto” – comecei a andar há pelo menos três ou, vá lá, quatro eternidades.
Hoje, encontrei um sinal que dizia: “Bem-vindo ao antigo ¼ do caminho! O posto de informações mais próximo foi deslocado para: Deck Infinitum, Stand Lost. Hora de Abertura: ao final do faltoso elemento, o Incontável – Tempo”
Posto isto, que mais que não espraiar-me?..


Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

domingo, 9 de junho de 2013

(Des)criação

Crio, não crio.
Ao momento da não-declaração
de consciência do que se sabe,
se é que se sabe de alguma coisa.
Criar, não criar – o mesmo que crer, não crer
que ideia de criação mais não é que fé
em bruta Condição.
da Razão – a ideia, com vínculo, poderosa, forte, sem escrúpulos;
do Imo – a concretização inócua, sem-efeito, vazada de significado,
pseudo-Oásis entre-Pontes.

E creio e não creio nos que vejo crer
e criar, abusando da lealdade da fé.
E crio e não creio no que crio e
descrio, descrendo da Ideia de perfeição –
- nenhuma Criação é genuínamente vinda da fé Férrea da Condição
do que se julga humano – ou Divino.



Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)