sábado, 13 de julho de 2013

DO SAL DO MAR

A frescura que
tantas vezes
dentro de mim falta
anseio abraçar
ao atirar-me
em teu Sal,
ó Mar!

Da escarpa,
minha mãe,
que lambes
eternamente
e dás sabor e côr,
me debruço em ti
– vejo-me.


Norberto Damásio

COORDENADAS



Passeamos os âmagos em cidades Antigas.
Tão Antigas como o suspiro que
Se verte em passadas largas
Por passeios ancestrais.

Jorramos palavras na Teia do Hoje
Como quem semeia o joio do Amanhã.
Não há forma de se Ser o que se não é
Ainda que se banhe o odor em sombra vã!

 

Maria Fernandes

Armadura


Decresce o tempo para que, enfim,
Me possa urdir da armadura que é
Há muito, muito ida - talvez até possa
Usar a Inerte Máscara
Essa antiga cara que usei, que sempre usei.

Derrete o tempo e tento que tudo se
Desfaça em ondas da ideia de não-Ser.

Decresce o tempo e comprimo a
Essência aos mínimos do tolerável.

Desaparece, descarado, o tempo
E já na tua pele me confesso insanável.

- Eu não sou a guerreira de todos os tempos, sou-o apenas do Nosso.

  



Maria Fernandes,
in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

24.11.12

Decidi ir na direcção que diz: “Informações sobre o tamanho d’Isto” – comecei a andar há pelo menos três ou, vá lá, quatro eternidades.
Hoje, encontrei um sinal que dizia: “Bem-vindo ao antigo ¼ do caminho! O posto de informações mais próximo foi deslocado para: Deck Infinitum, Stand Lost. Hora de Abertura: ao final do faltoso elemento, o Incontável – Tempo”
Posto isto, que mais que não espraiar-me?..


Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

domingo, 9 de junho de 2013

(Des)criação

Crio, não crio.
Ao momento da não-declaração
de consciência do que se sabe,
se é que se sabe de alguma coisa.
Criar, não criar – o mesmo que crer, não crer
que ideia de criação mais não é que fé
em bruta Condição.
da Razão – a ideia, com vínculo, poderosa, forte, sem escrúpulos;
do Imo – a concretização inócua, sem-efeito, vazada de significado,
pseudo-Oásis entre-Pontes.

E creio e não creio nos que vejo crer
e criar, abusando da lealdade da fé.
E crio e não creio no que crio e
descrio, descrendo da Ideia de perfeição –
- nenhuma Criação é genuínamente vinda da fé Férrea da Condição
do que se julga humano – ou Divino.



Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

A ti, meu Amor

Deixo-te hoje em verdade, meu amor.
Não há forma de garantir que viva
Que não deixar que te vás em teu vagar.
E te quedes esbraçejando a essa Foz -
Onde não pertenço e onde jamais poderei estar.

Julgo havê-lo pensado há mais tempo - mas a força,
essa alimentada de uma qualquer esperança absurda
e obtusa pseudocimentada de tolho - inexistente - e me vou, ora.

Deixo-te tudo e nada de mim como sempre
O tudo e o nada de mim possuíste -
Deixo-te todos os rios  em que, juntos, não corremos
e todos onde nadámos um pelo outro e nos socorrêmos,
E nos salvámos e fingimos que tudo corre, ainda que
se não mais respire como ordena a natura.

E eis-me, feita mulher dura e lacrimosa,
Em verde bretão desposada de infâmia, colecto ora
as cores negras da nova tela da tua ausência renovada -
e passo a enxergar-te no meu jamais , que nunca é muito tempo.
Ordenho nas manhãs o teu sorriso, consolo-me:
 - Há sempre forma de te fazer meu - aqui e agora.


Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)





sábado, 8 de junho de 2013

Ensaios de um Pseudónimo II

Pensamento da manhã ociosa: o escultor da palavra sente-se desdobrar em identidades, nomes e cognomes e sentires e psudosentires e mil momentos de despejo da alma.
Até não saber que é quem é. Ou se é quem é.

Norberto Damásio