sexta-feira, 29 de março de 2013
Sobre a Língua
Pode-se manejar sintaxes, repetições, descrições. Pode-se "malabarear" significados ao sabor de pensamentos obtusos, ardilosos ou nem sempre claros.
Não se pode despir nem obliterar a musicalidade, a musculatura e riqueza da Língua. Sob pena de decapitação de identidade de cada indivíduo como parte integrante da Grande Pátria.
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)
segunda-feira, 11 de março de 2013
Trago-te
dentro
do secreto murmúrio
da alma
ao adormecer.
Mastigo-te
até ao primeiro
piscar de olhos,
pela manhã.
Não sei que
respirar,
que pensar
que consumir,
consumindo-me,
que entranhar,
que sentir
que desejar
Sonhar
Cantar
Escrever
Devastar.
nada
que não sejas
Tu.
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
I wrote a poem
I wrote a poem on Mars
Collecting words from Jupiter. And then,
I wrote a poem by my window.
I wrote it walking down the street .
I wrote a poem while cooking
And healing my body from madness.
I wrote a poem.
I wrote a poem driving in dawns.
I wrote a poem in a workers' canteen.
I wrote a poem in sour coffee.
I wrote that poem.
I wrote it.
I did.
Maria Fernandes
Collecting words from Jupiter. And then,
I wrote a poem by my window.
I wrote it walking down the street .
I wrote a poem while cooking
And healing my body from madness.
I wrote a poem.
I wrote a poem driving in dawns.
I wrote a poem in a workers' canteen.
I wrote a poem in sour coffee.
I wrote that poem.
I wrote it.
I did.
Maria Fernandes
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Fica, ainda
Nem eu nem tu abrimos mão dos destinos.
Tu foste em demanda de algo que não ouso
perguntar
Eu atiro com força os braços ao ar, no
desejo de
Fazer sombra antes que o meu tronco
apodreça.
Contudo, fica comigo na tua saudade, no
teu íntimo que sabemos nosso,
Igual, da mesma matéria, do mesmo cheiro,
da mesma palavra.
Queda-te por perto, não afastes as
palavras de seda
Que vertes daí, nessa ausência presente e
onde respiras
Acordares angustiados de lágrimas em Nó. E
quero-te.
E corro o mais possivel de ti. E voo
sempre para ti. E não te quero.
E quero-te. Quero-a a ela, mulher-rochedo
de que não me ouso apartar.
Mulher-loucura da minha infância. Aquela
por quem me perdi. A outra. Tu.
Fica, fica-me cá por dentro desde aí –
onde estás.
Tu que me lês, tu que me escreves. Tu que
me choras, tu que me cantas.
Tu que me sonhas e me esperas e me ouves e
me gritas e me dás raiva, – tu!
Tu adormeces em mim a cada noite!
Tu. Tu me aqueces por dentro e sinto um
galáctico prurido aqui!
Eu. Sou um homem novo e velejo em mares também
novos, anseio portos de calmaria.
Porque me fico aqui a olhar-te? Se digo
que te amo – e não retiro o que digo -
Porque me fico aqui? Porque não vou para
onde estás?
Porque não vens de onde estás? Que fazes
tu, tão longe do meu desejo?
Quando é aqui que estendo os ramos que te
refrescam no sol do Norte
E preciso-te. E fujo-te. E corro para o
verde-negro e para ela-rochedo.
Nos seus olhos vazios tanta, mas tanta vez
eu vejo o teu rosto.
E vêm os tais dias em que me queres escapar,
feito areia nos dedos.
Perguntas porque sim, porque não, porque
nunca mais, quanto pesa, quando chega.
Eu não quero ter de explicar o que sabes,
sendo condição que o saibamos
Para que existamos assim, em contínuo
estado surreal-perfeito.
Só preciso que existas no meu plano
metafísico, onde busco paz,
Não me atreveria a fazer-te minha e real,
mas fica! – ainda.
Fica com essa voz desde aí. Não me olvides
nas noites de lágrimas.
Eu, que morro e me perco e me encontro na
curva da tua anca
Quando te me dás assim, sem condição. E
clamas com os olhos
Pelo meu nome numa língua que só eu sei, e
todo o eu
Se embute em ti, e és o meu estuário, a
minha foz, o meu delta-cativo.
A ti me mostro e me coso e te trago e te
deixo. E vou, sem palavra.
Norberto Damásio
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
CONSTATAÇÃO IV
Antes de te
tornares fantasma fugi de ti, esbaforida, inconsequente e pseudo-lúcida.
Agora que és bruma metafísica, teima em buscar-te a mente doentia, pesada, inconsciente e incapaz de perdoar.
Agora que és bruma metafísica, teima em buscar-te a mente doentia, pesada, inconsciente e incapaz de perdoar.
Carrego a
herança bruta de ti em cada carregar de sobrolho, a estupidez, a insanidade, o
orgulho idiota!!
E desejo em
soluços de raiva não ser de ti, nem nunca ter sido de ti, nem nunca ter tido de
ti. Em última instância, que houvessem enterrado com a tua podre e asquerosa
carcaça o que foi de mim em ti, o que possa ter tido de ti. Então poderia ser
ninguém.
Maria
Fernandes
CONSTATAÇÃO III
Já não sou genial.
Terá, certamente, existido o tempo
Do brilharete académico, da
Dialéctica admirável, prosa sem igual,
Do mais perspicaz e fluido dos raciocínios.
Versejos de bolso de trás, amarrotados,
E que atirava aos ouvidos ansiosos,
E não pouco histérico-bruxuleantes,
Das amantes coleccionadas em esquinas
De eventos anti-sociais.
E eu era genial, genial!
E todos me olhavam
Invejavam-me o porte confiante, a máscara
Colorida da ocasião, o novo assunto a discutir.
E um dia sou esterco. Já não sou genial.
Esterco. Ou merda, mesmo.
Terá, certamente, existido o tempo
Do brilharete académico, da
Dialéctica admirável, prosa sem igual,
Do mais perspicaz e fluido dos raciocínios.
Versejos de bolso de trás, amarrotados,
E que atirava aos ouvidos ansiosos,
E não pouco histérico-bruxuleantes,
Das amantes coleccionadas em esquinas
De eventos anti-sociais.
E eu era genial, genial!
E todos me olhavam
Invejavam-me o porte confiante, a máscara
Colorida da ocasião, o novo assunto a discutir.
E um dia sou esterco. Já não sou genial.
Esterco. Ou merda, mesmo.
Maria Fernandes
domingo, 27 de janeiro de 2013
Da Palavra Assassina
Como se escreve o
que se não pensa, o que se nos estravasa a lucidez?
Como compor em
palavras cognoscências cósmicas?
Se não sei
escrever mais do que o que penso
E me encontro,
não raras vezes, em coma sináptico
Buscando algo,
algo só.
Talvez me tenha
acabado a vida que possa esboçar.
Talvez não
conheça mais conceitos e observam-me
Os olhos dos que
me não vêem , nem me sentem, nem me cheiram.
E o meu nome não
ecoa em sítio nenhum, nem faz esboçar sorrisos.
Pensar a
infinitude já me não satisfaz, já me não preenche.
Quero agora a
nanoexistência invisível de se misturar em moléculas
Do querer, em
ardor, ser toda palavra, toda linguagem, toda ideia.
O nylon que entre
o dedos me vibra rasgando acordes que
Não sei articular
e quero-os abarcar em mim e quero-lhes
Mudar o nome e a
face para uma outra forma de arte, a dos
Inquietos e
insanos que se auto-instruem do conhecimento
Que se sabe,
enfim, enganou o mundo e os homens do mundo.
Saber ser, saber
o saber, ser o saber. Escrevê-lo na convicção
De que nada mais é
digno de ser pensado, reproduzido, lembrado.
E é quando se
olha por cima do ombro e já nem sombra se tem.
E é quando algum
vago auto-reflexo nos fita impunes e nos cala
De súbito a vã
oração da lei cósmica, que loucos vamos balbuciando
Em cada virar de
esquina, e sabemos que do pensar nasce a palavra.
E que esta em nós renasce.
E que esta em nós mata.
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)
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