sábado, 8 de dezembro de 2012

Some Faith

É uma vontade de sumir-se pelo chão dentro, esquecer-se.
Ser um novo a cada segundo. Mesclar-se no metafísico, saber nada.
Saber tudo, sentir tudo - ver nada, amar nada, odiar ecos.

É um ter-se de pé desmaiando a cada inspira-expira.
E lembra da dolorosa experiência do existir a insistir.
Não se sabe onde se insiste, não se sabe que se existe.

É o tudo dar e nada reter. É o despojar-se do pudor
Dos castos anos em que se não sonha a clarividência.
Saber-se desnudo, banido de si mesmo, escorraçado de si mesmo.

É de uma náusea velha e gasta de quem sabia já que o tudo
Mais não é que nada na curva apertada das vidas balbuciantes.
As vidas não são mais que dejectos de memórias.

É um sol que não derruba Ícaro. Um vinho que não embebeda Baco.
E ainda, embriagados de sobriedade, bradamos aos infernos
Um pouco de fé, só um pouco de fé cáustica, cálida. Um pouco.



Maria Fernandes






domingo, 25 de novembro de 2012

Psico-Ode da Mulher Apaixonada

E eis que desperto das procelosas vagas da minha aurora.
O ar quente de uma brisa suave traz-me o leve susurro desse nome em surdina. Não existem palavras que descrevam o meu estado no últimos dias. E noites. Esta é a oitava desde que a cosmicidade se consumou na inevitável rendição a que desde imemoráveis eternidades estava conjurada. Por teias do ser e não estar, do estar e não ser, a amar ainda assim, coisas-marianas, di-se-ia. Ah! - e como me perco em tudo o que debito! Ainda que desfrute do prazer esquecido do lápis no papel, redescoberto numa fase já avançada da  decomposição. E como amo a terra e as bases e todo o que é básico, elementar, puro, sem brioches de enfeite nem lantejoulas tagarelas.
No fundo, a ideia de que pelo caminho, a certa altura deixei de ser quem era ou me esqueci de ser quem era. A sensação de que não quis ser quem era mas não quis ser ninguém, nem nada. Quis ser eu sem saber quem era a mulher do reflexo. Quis ser eu, sendo outra, a desconhecida, a nunca-nomeada, a desalmada esbaforida, a mulher apaixonada.
Ou então nunca fui eu nem Eu, nem esta, nem aqueloutra. De maneira que esta que hoje em palavras definha pontapeia ainda em fúria o saco amniótico da solidão assassina.
Ainda que em mim te traga sem te poder alcançar. Ainda que em nenhum corrimão se dependurem as palavras que te falem da grandeza que é deste leve e ígneo âmago de mim, que o mesmo não é desde que o amas. Flutua, agora, paira suave pelos restícios de todas as noites em que adormeço na linha do teu corpo.
Agora, verto as ânsias de te mastigar no íntimo. Arremesso as odes todas que nasceram em sonhos nenhuns. Agora, nem uma palavra que console a leda alma. Agora, olho ao espelho com espanto a mulher intermitente, insistente, mordaz, furiosa, acutilantemente bravia e apaixonada.


Maria Fernandes

sábado, 17 de novembro de 2012

Úrsula



Sob rendas acetinadas,
Dá-me náuseas esta alma imunda
Que de corpos nojentos e suados
Se pinta de preciosas jóias em luxúria!

Ah, pudera ser mulher-menina outra vez!
Ser mulher-menina ao espelho da minha tez!
Menina-púdica que enrubesce a arrojados galanteios!
Mulher-menina de intocados seios!

Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Nudez

Despi-me da armadura de guerra que me deu minha mãe.
Nos anos seguintes, Contemplei tanto cá para dentro que é vulgar convencer-me que olhar para dentro passou a ser parte do meu Eu.

Agora,fico translúcida de me tanto olhar,
De me tanto pensar outra que não esta.
De me tanto pensar
Lesta         

                    leda       
                                     animalesca.

Vestido foi de veludo o ferro.



Maria Fernandes

domingo, 4 de novembro de 2012

Impressões

As palavras que se não sentem
são as que te murmuram
da loucura da mente minha
em vão se formam 
lascivas da pele tua.

As palavras que se não vêem
são as que ecoam no côncavo do regaço da tua mutilação.

As palavras onde deleito 
a ânsia de cafés em manhãs azuis de mantras.

As palavras trago em redomas de luz.


Maria Fernandes

sábado, 27 de outubro de 2012

Manual para a Lucidez

Desposa-a.
Recebe o ventre que se te dá, semeia-o.
Escreve-lhe em pontos aéreos luminosos
Os pesadelos todos das noites últimas.
- Irá fazê-los mito e aquecer-te-á o cerne.

Bebe-a.
Bebe do rasto das lágrimas que te devota.
Fala-lhe dessa dor dormente que te afaga
À qual esperneias e sacodes em raiva.
- Sopra-la-á em gestos suaves e consolar-te-á.

Rouba-a.
Arranca-a da corda bamba de onde não tomba.
De onde ainda te espera à luz da fé incauta.
Canta-lhe a oração das tuas manhãs de ouro.
- Dela fará mantras no nenúfar do teu lago.

Ama-a.
Sorve-lhe o âmago sedento da pele tua.
Afoga-te no calor dos seios que se lhe ardem ao toque.
Dá-te. Dá-te como se milhões de ti houvesse.
- Milhões dela fará para que jamais só te quedes.



Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)








terça-feira, 23 de outubro de 2012

Horas Primeiras

É sempre nas horas primeiras da madrugada
Que recito o teu nome.
Recito-o como se outra poesia não respirasse
Para além do teu eco metafísico
Na tal energia afogo a cor.
Com que me pinto - luz.

Confronto-me, não raras vezes
Com o que de mim poderia haver
Nas horas vagas do meu grito.

Se é verdade que cá do cimo tudo abarco
Verdade também é que lá de baixo
Nada e niguém almeja de mim a visão.



Maria Fernandes