quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Nudez

Despi-me da armadura de guerra que me deu minha mãe.
Nos anos seguintes, Contemplei tanto cá para dentro que é vulgar convencer-me que olhar para dentro passou a ser parte do meu Eu.

Agora,fico translúcida de me tanto olhar,
De me tanto pensar outra que não esta.
De me tanto pensar
Lesta         

                    leda       
                                     animalesca.

Vestido foi de veludo o ferro.



Maria Fernandes

domingo, 4 de novembro de 2012

Impressões

As palavras que se não sentem
são as que te murmuram
da loucura da mente minha
em vão se formam 
lascivas da pele tua.

As palavras que se não vêem
são as que ecoam no côncavo do regaço da tua mutilação.

As palavras onde deleito 
a ânsia de cafés em manhãs azuis de mantras.

As palavras trago em redomas de luz.


Maria Fernandes

sábado, 27 de outubro de 2012

Manual para a Lucidez

Desposa-a.
Recebe o ventre que se te dá, semeia-o.
Escreve-lhe em pontos aéreos luminosos
Os pesadelos todos das noites últimas.
- Irá fazê-los mito e aquecer-te-á o cerne.

Bebe-a.
Bebe do rasto das lágrimas que te devota.
Fala-lhe dessa dor dormente que te afaga
À qual esperneias e sacodes em raiva.
- Sopra-la-á em gestos suaves e consolar-te-á.

Rouba-a.
Arranca-a da corda bamba de onde não tomba.
De onde ainda te espera à luz da fé incauta.
Canta-lhe a oração das tuas manhãs de ouro.
- Dela fará mantras no nenúfar do teu lago.

Ama-a.
Sorve-lhe o âmago sedento da pele tua.
Afoga-te no calor dos seios que se lhe ardem ao toque.
Dá-te. Dá-te como se milhões de ti houvesse.
- Milhões dela fará para que jamais só te quedes.



Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)








terça-feira, 23 de outubro de 2012

Horas Primeiras

É sempre nas horas primeiras da madrugada
Que recito o teu nome.
Recito-o como se outra poesia não respirasse
Para além do teu eco metafísico
Na tal energia afogo a cor.
Com que me pinto - luz.

Confronto-me, não raras vezes
Com o que de mim poderia haver
Nas horas vagas do meu grito.

Se é verdade que cá do cimo tudo abarco
Verdade também é que lá de baixo
Nada e niguém almeja de mim a visão.



Maria Fernandes

domingo, 14 de outubro de 2012

The Bear

Fica em Stratford Road.
Há um qualquer quê nestes pubs. Gosto de me embutir na mobília velha e ouvir o sotaque dos velhos que vêm beber cidra até já não entender que raio de inglês estarão a falar.
Notam-me logo como desconhecida. Imaginam certamente que notas descritivas ou maléficas estarei a escrever.
Os velhos são músicos. Põem-se a um canto e tocam uma espécie de country ao estilo rockabilly. Ninguém parece ligar-lhes. Os velhos também jogam às cartas. Como sou leiga, não percebo que jogo é. Ah, se ao menos o Jack Daniels que pedi me aquecesse as entranhas podia ser que escrevesse um poema. Um poema sobre os velhos, talvez. Talvez depois o afixasse nas portas do pub. Talvez depois houvesse um velho bêbado que o declamasse.
Os velhos também são mulheres. Encharcam-se de whisky e cola e filas de cidra à pint. De repente, parecem notar os velhos que são músicos e põem-se a menear os corpos velhos nas cadeiras. Patéticos, estes velhos que são mulheres. O século XXI não parece ter chegado aqui. Uma foto neste minuto com uma legenda de 1964 seria perfeitamente plausivel. Uma espécie de regressão. Esta gente diverte-se? Parecem estar todos a representar uma cena de outros tempos. Como se todos se tivessem vestido assim e penteado e  maquilhado assim para estarem aqui hoje e agora. Como se passassem a totais desconhecidos e voltassem às suas vidas reais de velhos na altura em que saem lá para fora.
Não é permitido fumar. Não cheira a whisky e a cigarros. 
Cheira só a whisky.


Maria Fernandes

sábado, 13 de outubro de 2012

From Hell - A Postcard





Bouncing, bouncing...

The further I go, the harder I breathe through those flames..
I have been down for eternities losing my faith
Just bouncing from flame to flame.
Waving goodbye to that muscled man
Climbing up the hill praying sin-words to his huge
And eternal fire rock... he pretends to believe in mercy - but I don´t.

Oh yes, I've seen terrible things while bouncing.
Dogs with several heads and snake tails.
Blind women screaming chants of horror and pain
Through their throats infected with deadly poison.
The eyes jumping from their orbits licking everything around.

When dawns are about to rise and as I struggle
To fly in the land of open perceptions, I can still
Hear that sarcastic laughter of those little devils flying in that flaming red sky.
Some of them like to whisper dirty things in our ears - to burn our senses away
To burn our minds away, to make us wish for more sin as a thirst, as a curse.

Landscapes? Oh, there's a lake of fire I remember now
It burned my tongue when in despair I tried to drink from it's womb.
The rest of my dying speech could be explained by the force
Of my latest screaming thoughts for now I write.
What remained from the tongue... bounces.

After all it could be paradise, then I write in tiredness.
What worths your pain could never end mine, I'll take it as a blessing.
Will drag it out in the desolation land where I gladly
Stab former angel's wings, hoping to fly on them. 
Hoping for they to hold and don´t melt as I finally reach the sun.


Maria Fernandes


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Anna, louca




Anna, louca
Tenho uma faca debaixo do braço.
Quando em bicos de pés debito mensagens.
Serei algum tipo de infecção?
Fiz-te enlouquecer?
Tornei acres os sons?
Disse-te que trepasses à janela?
Perdoa. Perdoa.
Diz que o não fiz.
Diz que não.
Diz.

Reza  Avé-Marias na nossa almofada.
Leva-me o desengonçado dos doze anos
Para o teu colo submerso.
Sussurra-me como a um botão-de-ouro.
Come-me. Come-me como a um pudim-creme.
Toma-me em ti.
Toma-me.
Toma.

Dá-me um relatório sobre a condição da minha alma.
Dá-me um depoimento completo das minhas acções.
Dá-me uma concha de arácea e deixa que a ouça.
Põe-me nos estribos e traz uma excursão.
Enumera meus pecados na lista da mercearia e deixa que os compre.
Ter-te-ei enlouquecido?
Ter-te-ei ligado o auricular e posto uma sirene a tocar?
Terei aberto a porta ao psiquiatra de bigode
Que te arrastou consigo como a uma cesta dourada?
Ter-te-ei enlouquecido?
Desde a sepultura escreve-me, Anna!
Não és mais que cinzas mas ainda assim
Pega na Parker que te dei.
Escreve-me.
Escreve.






Anne Sexton
Tradução: Maria Fernandes