sábado, 6 de outubro de 2012

Disse o Poeta ao Analista


O meu trabalho são as palavras. Palavras são como rótulos,
Ou moedas, ou melhor, como um enxame de abelhas.
Confesso que só as origens das coisas me quebram;
Como se as palavras fossem contadas como abelhas mortas no sótão,
Despojadas dos  olhos amarelos e das asas secas.
Tenho sempre de me esquecer que palavra é capaz de escolher
Outra, para arranjar outra, até que obtenha
Algo que possa ter dito...
Mas não disse.
O teu trabalho é observar as minhas palavras. Mas eu
Não admito nada. Valho pelo meu melhor, por exemplo,
Quando consigo escrever  o meu louvor a uma máquina de níquel,
Naquela noite no Nevada:  contando como o mágico jackpot
Veio três vezes badalando, pelo écran da sorte fora.
Mas se disseres que isto é algo que o não é,
Enfraqueço, lembrando como senti as mãos estranhas
E ridículas e lotadas com todo
O dinheiro da crença.

Anne Sexton
Tradução: Maria Fernandes

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Fantasmas


Alguns fantasmas são mulheres
Abstratas,  pálidas,
De seios flácidos como peixe morto.
Não bruxas, mas fantasmas
Que vêm, movendo os braços inúteis
Como servas desamparadas.

Nem todos os fantasmas são mulheres,
Já vi outros;
Homens gordos, de barrigas alvas,
Meneiam os genitais como trapos velhos.
Não demónios, mas fantasmas.
Este, bate com os pés descalços
Encima da minha cama.

Mas não é tudo.
Alguns fantasmas são crianças.
Não anjos, mas fantasmas;
Ondulando como xícaras de chá rosa
Num qualquer travesseiro, ou esperneando.
Mostrando os sexos inocentes, lamentando
Lúcifer.


Anne Sexton
Tradução: Maria Fernandes

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Birmingham

Aromas há
Que nos levam muito para lá
De qualquer vaga procelosa
Que teime em nos submergir.
Hoje e aqui, cheira a relva acabada de cortar.

Como se a chuva não fosse feroz
Ao ponto de matar o Primordial
Aroma da Imortal Saudade,
- Essa que é só nossa e que a todos queremos dar.

Já não chove.
Mas quedo-me um pouco mais.
E falam comigo. E respondo.
Quebra-se o gelo.
O esquilo passa a  correr.


Ao primeiro corvo que vi, deu-se a estupefacção.
Nova a ideia, nesta cidade.


Maria Fernandes

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Da Imperiosa Urgência de Transbordar

Para todo o lado te levo.
Levo-te para todos os sonos
E para todos os sonhos que não tenho de ti.
- Dançando aos pés
Dos piramidais paralelepípedos
À vista do homem mais esverdeado que o verde.

O que me inspira é a realidade à minha volta.
As coisas que se mexem e não se mexem.
As vivas e as mortas. As que falam
E às que dou eu vida na mente
Insana e doentia, minha.
Aos raios de sol que me banham.
à chuva que me resseca.

À medida que me sinto embutir
Nos marrons tijolos da Bruta cidade a meus pés
À que me sinto subjugar.

Procuro sempre bocados de verde
Onde me possa esconder, como agora,
Entre as árvores.
E finjo sentir a Intemporal Terra, minha
Porque quero sentir as Terras como minhas?
- Se a nenhuma pertenço?
Porquê a elas me quero lançar,
Cultivar uma espécie nova qualquer
Porquê? - Se não sei em que ano paro.
Mas à Terra, essa sei-a bem.
Como ela me soube a Mim.
E assim me fez, como assim te fez, também.
Que também o sentes.
Fizémo-nos assim. E assim nos sabemos.

Maria Fernandes

sábado, 22 de setembro de 2012

Meu Luar

Para ter-te agora 
em meu regaço, 
minha carne, 
aos entremeados 
mundos 
sucumbiria tanto grito....

Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ERÓTICA


O ar e o tempo desaparecem à vista um do outro. Num ápice os poucos metros, os poucos centímetros desaparecem entre os lábios sôfregos. Sustêm-se respirações, só muito depois abrandam os pulsos.
As mãos indecentes e selvagens não se contêm à vista dos corpos, percorrem-no lânguida e longamente - o peito. o pescoço, os seios, o ventre, as nádegas, o sexo quente. O cheiro da sensualidade, intolerável aos sentidos abarca a aura indelével e etérea ao redor dos corpos gritando urgentemente por calor, por posse, por entrega.
A cada peça de roupa atirada ao chão uma emoção desnuda, uma carne descoberta, pronta para ser arrasada no delírio da entrega. Arfam gargantas, arqueiam silhuetas, fundem-se poros. Os dedos procuram urgentes o cerne da essência, clamores ardorosos respondem.
Deixar que a boca velada e húmida lhe percorra a pele amarrotando-a em beijos exigentes e embalar-se na melodia de gemidos e suspiros incontidos.
Ofuscar pelo rasto do brilho da sua saliva nos seios desnudos, abandonando-se ao calor do sexo duro e vero.
O ritmo incompatível e inenarrável é o único sentir da sala, também ela desnuda. Há muito que a fogueira não emite luz, nem calor. Só os corpos se mascaram de real verdade de sentir, abandonados à inverosímel ideia de verdade. Ainda que os sexos se beijem e se fundam, e se amem e se  fundam e morram no renascimento um do outro...  e se fundam. Nunca todo o toque, todo o jeito, todo o olhar será suficiente.
A uma certa altura deixa de haver espaço. Ou som. Ou sequer noção de existência. Ao lado do seu  Eu vê o teu Eu.
Profana reunião de sílabas dissabores, multicolores de sons.
Vero amore.


Maria Fernandes

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Impropérios

Da inexplicável ideia de Imortalidade.
Da inconcebível caducidade de dois.
Do absoluto confronto de epidermes-luz.
Da explicação do inexplicável.
Da guerra entre realidades.
Das vidas iguais e tresmalhadas.
Dos diálogos secretos.
Dos inaudíveis gritos-soneto.
Da verdade que mais parece sonho.
Do sonho que mais parece verdade.

Dizer que te amo é tão violento
Quanto mandar-te ao caralho.
Que se foda!


Maria Fernandes