terça-feira, 25 de setembro de 2012

Da Imperiosa Urgência de Transbordar

Para todo o lado te levo.
Levo-te para todos os sonos
E para todos os sonhos que não tenho de ti.
- Dançando aos pés
Dos piramidais paralelepípedos
À vista do homem mais esverdeado que o verde.

O que me inspira é a realidade à minha volta.
As coisas que se mexem e não se mexem.
As vivas e as mortas. As que falam
E às que dou eu vida na mente
Insana e doentia, minha.
Aos raios de sol que me banham.
à chuva que me resseca.

À medida que me sinto embutir
Nos marrons tijolos da Bruta cidade a meus pés
À que me sinto subjugar.

Procuro sempre bocados de verde
Onde me possa esconder, como agora,
Entre as árvores.
E finjo sentir a Intemporal Terra, minha
Porque quero sentir as Terras como minhas?
- Se a nenhuma pertenço?
Porquê a elas me quero lançar,
Cultivar uma espécie nova qualquer
Porquê? - Se não sei em que ano paro.
Mas à Terra, essa sei-a bem.
Como ela me soube a Mim.
E assim me fez, como assim te fez, também.
Que também o sentes.
Fizémo-nos assim. E assim nos sabemos.

Maria Fernandes

sábado, 22 de setembro de 2012

Meu Luar

Para ter-te agora 
em meu regaço, 
minha carne, 
aos entremeados 
mundos 
sucumbiria tanto grito....

Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ERÓTICA


O ar e o tempo desaparecem à vista um do outro. Num ápice os poucos metros, os poucos centímetros desaparecem entre os lábios sôfregos. Sustêm-se respirações, só muito depois abrandam os pulsos.
As mãos indecentes e selvagens não se contêm à vista dos corpos, percorrem-no lânguida e longamente - o peito. o pescoço, os seios, o ventre, as nádegas, o sexo quente. O cheiro da sensualidade, intolerável aos sentidos abarca a aura indelével e etérea ao redor dos corpos gritando urgentemente por calor, por posse, por entrega.
A cada peça de roupa atirada ao chão uma emoção desnuda, uma carne descoberta, pronta para ser arrasada no delírio da entrega. Arfam gargantas, arqueiam silhuetas, fundem-se poros. Os dedos procuram urgentes o cerne da essência, clamores ardorosos respondem.
Deixar que a boca velada e húmida lhe percorra a pele amarrotando-a em beijos exigentes e embalar-se na melodia de gemidos e suspiros incontidos.
Ofuscar pelo rasto do brilho da sua saliva nos seios desnudos, abandonando-se ao calor do sexo duro e vero.
O ritmo incompatível e inenarrável é o único sentir da sala, também ela desnuda. Há muito que a fogueira não emite luz, nem calor. Só os corpos se mascaram de real verdade de sentir, abandonados à inverosímel ideia de verdade. Ainda que os sexos se beijem e se fundam, e se amem e se  fundam e morram no renascimento um do outro...  e se fundam. Nunca todo o toque, todo o jeito, todo o olhar será suficiente.
A uma certa altura deixa de haver espaço. Ou som. Ou sequer noção de existência. Ao lado do seu  Eu vê o teu Eu.
Profana reunião de sílabas dissabores, multicolores de sons.
Vero amore.


Maria Fernandes

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Impropérios

Da inexplicável ideia de Imortalidade.
Da inconcebível caducidade de dois.
Do absoluto confronto de epidermes-luz.
Da explicação do inexplicável.
Da guerra entre realidades.
Das vidas iguais e tresmalhadas.
Dos diálogos secretos.
Dos inaudíveis gritos-soneto.
Da verdade que mais parece sonho.
Do sonho que mais parece verdade.

Dizer que te amo é tão violento
Quanto mandar-te ao caralho.
Que se foda!


Maria Fernandes

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Consideração

Extravasar-me e sentar-me à escrita
Não vá o extavasamento abarcar-me a mudez
Dos dias últimos e
No hoje diga o ontem
Faça jorrar o ontem
Sentir de novo o ontem.
Senti-lo na pseudo melodia
Dum sax rosa em Waterloo.
No Sol moribundo em esplendor
No doce ocaso do hoje.
Recolhi as imagens, as cores.
Murmurei as frases que depois esqueço.
Atirei tudo depois - com essa febre
De heroína vencida -
À feroz e lacerante
Penumbra que se insinuou
Entre ramos, ruas, pessoas, olhos rasos.
Varri tudo para o túnel da travessia
Esperei que tudo viesse de volta.
E bebo agora em deleite desse vinho
Que me não embriaga nem me aquece.





Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Contraponto






Nos primórdios era diferente.
Debitava, jorrava emoções com 
Falta de sintaxe, sem metáforas.
Não lembrava alegorias nem epopeias.
Nenhum épico - com excepção de um ou outro -
Parecia reflectir  realidade alguma à
Minha volta nem do que de mim jorrava.
Perdia o juízo, de caneta em  punho.
Ansiosa de jorrar - sem trabalho.
Como se de sede insaciável se tratasse.
E amanhã não houvesse aurora.

Nos dias que correm, de novo no verde
Detenho-me a cada detalhe do movimento
Pé ante pé na relva húmida da
Impiedosa chuva de ontem.
Hoje, tudo brota fluidamente.
Os grandes conceitos ganhos na
Dureza e loucura de muitos dias
Atrás de noites taxidérmicas.
Tudo com a exactidão pronta
Da ciência das palavras
Adornadas de ventosos raciocínios
Explicáveis ou não. Às vezes.

Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)
(revisto em 11.01.2014)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Rodopio Incessante

E gentilmente dançamos no suave e bucólico 
Ritmo da nossa cumplicidade e da mansidão 
De através dos anos nos sabermos um do outro...

Se de alguma forma me cantasses, ou de alguma forma me sonhasses.
Se o confessasses a alguém que cometesse inconfidência
E me bradasse ao ouvido essa canção de suis generis melodia,
De ritmo descompassado, de letra incerta -
Oh, Clarividência! O quanto que demoras!

E rodopiamos nessa música de estrelas em diálogos silenciosos
Carimbo da nossa cumplicidade e da imensidão
De depois de eternidades nos sabermos um no outro...


Maria Fernandes