sábado, 21 de julho de 2012

TILT!

A mudez a ansiedade preencheram
Os impossiveis sonhos desta noite
Com sussurros lacerantes de nuvens negras de desilusão...
Fiz-me erma na impossibilidade
E dificuldade inócua das lágrimas.
Não.
Auto-linchei-me.
Do limbo nocturno emergi arrancada a esse abraço
Privada de mim própria, envolta em mim própria
Estarrecida e absorta me quedei
Como me quedo sempre.

À volta dos séculos, é impossível saber quando nos conhecemos embora lembre perfeitamente da vez em que nos encontramos na corrente vida. Os cernes nossos reconheceram-se imediatamente e decidiram que era altura de uma vez mais no decorrer das eternidades afinarem horizontes,- o Plano áureo e irrealizável conjunto.


Maria Fernandes

terça-feira, 17 de julho de 2012

Contemplação


A brisa um tanto arisca.
Os melros cantam.
O chão cinza, tua tez imóvel.

Antes haviam brilhado, teus olhos.
Agora encerram contemplação etérea.
O chão cinza, tua tez imóvel.

Olho o recanto.
Pergunto como seria a vista de fora.
O chão cinza, tua tez imóvel.

Nada é conhecimento confiado
e se, enfim, te quero saber é na
demanda do capricho ou no capricho da demanda?
Pergunto à arisca brisa, ao melro
no cabo de tensão. Quis saber se
na tua interna contemplação estaria o Graal.
Olho o recanto: não há resposta.
Só o chão cinza e tua tez imóvel!



Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)

terça-feira, 10 de julho de 2012

Premonição


Ouço.
Como se o cheiro desta enormíssima noite
Me trouxesse de volta o vazio dos anos
Em que em cada entardecer tentei
Em vão recompor-me do pesadelo da noite anterior..

Contemplo
A esvoaçante e lilás melodia do batuque
Da mente ao descortinar ideias e conceitos
Que não ouso pronunciar - profanos!!
E que me apartam e me acercam...

Sinto
O suave murmurar da respiração tua
Em minha pele arrepiada, ciosa de ti - de tudo de Ti!
Mil a milímetro, decibéis perecíveis, as cores..
Julgadas mortais, eis que emergem do vão desse bêco!

O teu cheiro
Rapta a monte e brada aos mundos
Ariscas e férreas vontades de jamais emergir das paredes azuis
As que, escravas, não tiveram remédio que
Ser testemunho de quinhentos e vinte e cinco mil milhões de outras vidas passadas..

E a meu palato
Vem o doce e tão acre sabor a Ti -
O mesmo que em aromas me cobriu por
Mais não sei quantas horas até que em solo sacro
Ou não sacro me ajeitei a este alarde de sentidos, que em verdade os sinto mais vãos que idos!


Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

The Time of the Lie


Get myself rid of everything, even my Identity!
Undress me of Ideas, thoughts and conclusions.
Not having an opinion, not knowing, not rebelling!
Get myself rid of the two feet around me,
Pour me of Aura -to be no longer Me.
Waive all and any felling.
To stone, stone becoming to the most
Pale shadow of emotion, - let it be gone.

'Cause nothing I own, nor own myself nor
Allow the soul the dream of owning you.
Maybe, again, in another Land, with
Another time and other Salt, maybe then...
It doesn't matter wich role we have -
Only that we have one. One of the Eternals, now, if you please.
One with no expiration date, that never expires irrevocably.
One that writes me about Eros and caresses me untouched.
One that whispers me in the falling night and dandles.

From the cliff I cast away the Voice that in terraces
Frightened me and retracted me.
In the end nothing more recalls but the Time of the Lie.

Maria Fernandes

Ideia de te Amar


Se eu amanhã estiver, passa por mim como se eu nada fosse.
Trespassa-me com o olhar, mas faz com que nada sinta.
Refresca-me a fronte e vira as costas.
Aturdida e amarrotada me quedarei na insensibilidade do Gelo.
É por não poder cantar-te que te escrevo.
É por não poder tocar-te que te sonho esta e
A cada madrugada em que acordo
Com a ideia de te amar. Que amar-te mais não é que ideia minha - assombrosa.
Tenebrosa e febril, gélida e cálida esta ideia de te amar - Insana a ti me atiro e desatino
Como se esse vale fosse o negro e descomunal buraco onde
Ousei perder-me na tua pele para não mais ser achada.
Nas manhãs em que vagueio à chuva com os sonhos
Ainda pululantes na mente que se não atreve a despertar
Pergunto às gotas onde estou, que te dei, se algo te dei,
Que de mim em ti ficou, se algo ficou e como raio
Me posso manter viva na quietude do Gelo desta Máscara.
Devolve-ma de vez para que enfim me refaça.
Devolve-ma de vez para que enfim veja o cerne da que fui.
Já que jamais fui a mesma desde que sem palavras nos tivemos.

Se eu amanhã estiver, passa por mim como se eu nada fosse.
Longa e encarecidamente suplico: abandona-me por mais que me mate.
Já não suporto as madrugadas e esta ideia de te amar.


Maria Fernandes

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Busca



Uma destas portas deve ser a minha.
De entre todas as direcções, todas as ruas,
De entre todas as carreiras em direcção ao Fim
Uma tem de ser a minha!

Corro e percorro todas as vias, vielas e ruelas
Que o meu olhar consegue abarcar.
Arrasto-me em plenitude de arrastanço
Mas jamais avanço!
Por mais que corra e percorra, que voe e em mandalas viaje,
O sonhado mantra cisma em se não cantar.
E espero e desepero e escavo o côncavo deste
Quase desalmado Ser, que de alma e emoção anseio despir-me!
Mas não me desnuda, esta mortalha! - aconchega-me
No seu calor em carícia mortífera!


No gritante silêncio sinto já ida  a esperança - abarca-me o oco eco.

Maria Fernandes





domingo, 24 de junho de 2012

A Espera


Até nas imensuráveis milhas te espero.
Na chuva que vejo cair,
Vejo cair o teu olhar em meu corpo desnudo.
Na junção musical da chuva com um Nocturne.. te espero também.
Na beleza que descubro nas melodias
Entrecortadas por raios decibéis,
Na rajada mais forte deste vento,
Numa ou noutra nuvem mais negra,
Em cada negro café e pensamento te espero. Mas tu não vens...

Espero-te mesmo no café da esquina,
Onde nunca irás entrar para uma bica.
Espero-te na estação de comboio
Onde não acorreste para me impedir de partir
Nem de ti e de mim apartar abomináveis verdades..
-Trouxe-as na mala, assombram todos os meus dias e noites..
Até em todas as cãs dos desconhecidos te espero.
Nos seus olhares indiferentes em boa verdade te aguardo.
No marulhar desse oceano silencioso naquela noite,
No sítio onde se escondem todas as estrelas
Deslumbrada, aturdida, escravizada te espero. Mas tu não vens.

Maria Fernandes