sexta-feira, 6 de julho de 2012

The Time of the Lie


Get myself rid of everything, even my Identity!
Undress me of Ideas, thoughts and conclusions.
Not having an opinion, not knowing, not rebelling!
Get myself rid of the two feet around me,
Pour me of Aura -to be no longer Me.
Waive all and any felling.
To stone, stone becoming to the most
Pale shadow of emotion, - let it be gone.

'Cause nothing I own, nor own myself nor
Allow the soul the dream of owning you.
Maybe, again, in another Land, with
Another time and other Salt, maybe then...
It doesn't matter wich role we have -
Only that we have one. One of the Eternals, now, if you please.
One with no expiration date, that never expires irrevocably.
One that writes me about Eros and caresses me untouched.
One that whispers me in the falling night and dandles.

From the cliff I cast away the Voice that in terraces
Frightened me and retracted me.
In the end nothing more recalls but the Time of the Lie.

Maria Fernandes

Ideia de te Amar


Se eu amanhã estiver, passa por mim como se eu nada fosse.
Trespassa-me com o olhar, mas faz com que nada sinta.
Refresca-me a fronte e vira as costas.
Aturdida e amarrotada me quedarei na insensibilidade do Gelo.
É por não poder cantar-te que te escrevo.
É por não poder tocar-te que te sonho esta e
A cada madrugada em que acordo
Com a ideia de te amar. Que amar-te mais não é que ideia minha - assombrosa.
Tenebrosa e febril, gélida e cálida esta ideia de te amar - Insana a ti me atiro e desatino
Como se esse vale fosse o negro e descomunal buraco onde
Ousei perder-me na tua pele para não mais ser achada.
Nas manhãs em que vagueio à chuva com os sonhos
Ainda pululantes na mente que se não atreve a despertar
Pergunto às gotas onde estou, que te dei, se algo te dei,
Que de mim em ti ficou, se algo ficou e como raio
Me posso manter viva na quietude do Gelo desta Máscara.
Devolve-ma de vez para que enfim me refaça.
Devolve-ma de vez para que enfim veja o cerne da que fui.
Já que jamais fui a mesma desde que sem palavras nos tivemos.

Se eu amanhã estiver, passa por mim como se eu nada fosse.
Longa e encarecidamente suplico: abandona-me por mais que me mate.
Já não suporto as madrugadas e esta ideia de te amar.


Maria Fernandes

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Busca



Uma destas portas deve ser a minha.
De entre todas as direcções, todas as ruas,
De entre todas as carreiras em direcção ao Fim
Uma tem de ser a minha!

Corro e percorro todas as vias, vielas e ruelas
Que o meu olhar consegue abarcar.
Arrasto-me em plenitude de arrastanço
Mas jamais avanço!
Por mais que corra e percorra, que voe e em mandalas viaje,
O sonhado mantra cisma em se não cantar.
E espero e desepero e escavo o côncavo deste
Quase desalmado Ser, que de alma e emoção anseio despir-me!
Mas não me desnuda, esta mortalha! - aconchega-me
No seu calor em carícia mortífera!


No gritante silêncio sinto já ida  a esperança - abarca-me o oco eco.

Maria Fernandes





domingo, 24 de junho de 2012

A Espera


Até nas imensuráveis milhas te espero.
Na chuva que vejo cair,
Vejo cair o teu olhar em meu corpo desnudo.
Na junção musical da chuva com um Nocturne.. te espero também.
Na beleza que descubro nas melodias
Entrecortadas por raios decibéis,
Na rajada mais forte deste vento,
Numa ou noutra nuvem mais negra,
Em cada negro café e pensamento te espero. Mas tu não vens...

Espero-te mesmo no café da esquina,
Onde nunca irás entrar para uma bica.
Espero-te na estação de comboio
Onde não acorreste para me impedir de partir
Nem de ti e de mim apartar abomináveis verdades..
-Trouxe-as na mala, assombram todos os meus dias e noites..
Até em todas as cãs dos desconhecidos te espero.
Nos seus olhares indiferentes em boa verdade te aguardo.
No marulhar desse oceano silencioso naquela noite,
No sítio onde se escondem todas as estrelas
Deslumbrada, aturdida, escravizada te espero. Mas tu não vens.

Maria Fernandes

sábado, 23 de junho de 2012

Contemplação VIII


Sempre que o silêncio me abarca mergulho neste estado contemplativo. Posso ficar assim durante horas. Às vezes dou por mim, já vai a noite a cair. Quando desperto não recordo sobre que pensamentos, ideias, emoções terei deliberado silenciosamente em minha mente. Preocupo-me muitas vezes com a minha sanidade mental, não confio muito nela. Tento acalmar-me com o facto de não haver historial de loucura na família, embora esta possa não ser uma questão genética mas comportamental e resultado do meio envolvente, realidade visceral.
Diante do meu olhar perdido, há mil e uma visões, trezentos e cinquenta mil diálogos imaginários, oitocentos e trinta e sete milhões de supostas situações, histórias de nada, de uma dimensão a que ainda nem cheguei. Depois de acordar disto, tento lembrar o que em minha ideia ia e de novo me vejo embarcar em novas ideias sobre a ideia que vinha tendo e da qual não me consigo lembrar. E de sonho em sonho sobre ideias e pensamentos em frente à minha janela me deixo embalar ao som do vento nas árvores - o seu movimento faz-me ter a certeza de que afinal acordei algures na minha manhã e desci ao 1º andar onde à secretária, diante da grande janela em divagações me perco.
A poesia é tentativa normalmente falhada de auto-explicação, explanação de mim mesma. Ora me suplanta, ora me deixa em ânsia e desejo. Ora me preenche, ora me vaza. Coexistência raramente pacífica que tanta vez me deixa em franja o que, diga-se de passagem, não é difícil. E admiro-me que tanta gente goste, onde andei eu? Bem, na verdade não acho que seja assim tão bom. Sou péssima a não ser Eu e raro do que crio  não fica a metade.

Poucas vezes escrevi de forma tão clara. Aqui e em qualquer lado, sabendo que alguém lerá, a tentativa de mascarar o que sinto, o que penso, o que imagino com melodias, cores, sintaxes e vírgulas distintas como que para engodo. Gosto de "labirintear" o discernimento de quem lê, se ler e de "inventar" palavras como "labirintear" a meio de um qualquer texto. Gosto que seja preciso ler duas ou três vezes para começar a perceber, tal é a intrincada trama que lhe adoro fazer inerente. Contudo, garanto que poucas vezes escrevi tão claramente - dizendo realmente o que escrevo, com vontade e sem vontade de que me perguntem nada. Já pensei  e escrevi sobre essa parte, não estarei a repetir-me. Ide à Contemplação V que tenho mais que faça.
Não, não saiu poesia na oitava parte da indefinida Contemplação em que tenho colocado meus despojos mentais - às vezes saem bem adornados -, mas um não-sei-quê espécie de retrato actual da minha visão e da certeza quanto ao ser real que me dão as árvores dançantes. E saiu bem claro, de uma clareza ofuscante que nem eu percebo. Mas no texto me fui e... eis-me chegada. Vencida pela insignificância do eco. Questionando ainda se é Real ou Já Visto.

Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Hora Da Mentira

Desfazer-me  de tudo, até da Identidade!
Despir-me de Ideias, pensamentos e ilacções.
Não opinar, não saber, não se revoltar!
Desfazer-me do meio metro à minha volta,
Vazar-me de Aura - não mais ser Eu.
Renunciar a todo e qualquer sentir
Apedrejar, pedra tornando-me à mais
Pálida sombra de emoção, - que se vá.


Que nada possuo, nem me possuo nem
Permito à alma que sonhe em te possuir.
Talvez, de novo, numa outra Terra, com um
Outro tempo e outro Sal, talvez então..
Não importe o papel que se tenha -
Apenas que se tenha um. Um dos Eternos, já agora, sff.
Que não tenha prazo de validade, que jamais expire irremediavelmente.
Que me escreva de Eros e me acaricie sem tocar.
Que me sussurre na noite ao cair e embalar.

Do penhasco atirar a Voz que em socalcos
Me amedrontava e retraía.
No final, nada mais lembra que a Hora da Mentira.


Maria Fernandes

Dissertação Mental


Não dizer nada. Não ter nada a declarar.
Furtivamente atirar-me à mercê das palavras,
desfiar o novelo em que se instalou a minha mente.
Espraiar monólogos imaginários, encenar reacções.
Descrever, reescrever escrevendo todas as sílabas
De que me lembre de existirem. Talvez invente
Uma ou outra.. ou uma palavra ou outra...

Mas sem dizer nada, nada de nada.
Armar redoma em mim mesma, não me sentir
A mim mesma. Sentir-me do exterior de mim mesma.
Como se houvesse uma nova versão de mim
A cada eternidade e todas acontecessem ao mesmo tempo.
Ainda assim, nada teria a dizer. Nada iria querer dizer.
Preferiria esvoaçar a mente silenciosa ao ritmo das teclas a que hoje me rendo.
Na tecitura caracterizada estendo as vestes da insanidade
Coloco à vista impropérios indizíveis, perceptíveis a meia-dúzia.
Que se lixe, respiro amanhã.

Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)