quinta-feira, 5 de julho de 2012
A Busca
Uma destas portas deve ser a minha.
De entre todas as direcções, todas as ruas,
De entre todas as carreiras em direcção ao Fim
Uma tem de ser a minha!
Corro e percorro todas as vias, vielas e ruelas
Que o meu olhar consegue abarcar.
Arrasto-me em plenitude de arrastanço
Mas jamais avanço!
Por mais que corra e percorra, que voe e em mandalas viaje,
O sonhado mantra cisma em se não cantar.
E espero e desepero e escavo o côncavo deste
Quase desalmado Ser, que de alma e emoção anseio despir-me!
Mas não me desnuda, esta mortalha! - aconchega-me
No seu calor em carícia mortífera!
No gritante silêncio sinto já ida a esperança - abarca-me o oco eco.
Maria Fernandes
domingo, 24 de junho de 2012
A Espera
Até nas imensuráveis milhas te espero.
Na chuva que vejo cair,
Vejo cair o teu olhar em meu corpo desnudo.
Na junção musical da chuva com um Nocturne.. te espero
também.
Na beleza que descubro nas melodias
Entrecortadas por raios decibéis,
Na rajada mais forte deste vento,
Numa ou noutra nuvem mais negra,
Em cada negro café e pensamento te espero. Mas tu não vens...
Espero-te mesmo no café da esquina,
Onde nunca irás entrar para uma bica.
Espero-te na estação de comboio
Onde não acorreste para me impedir de partir
Nem de ti e de mim apartar abomináveis verdades..
-Trouxe-as na mala, assombram todos os meus dias e noites..
Até em todas as cãs dos desconhecidos te espero.
Nos seus olhares indiferentes em boa verdade te aguardo.
Nos seus olhares indiferentes em boa verdade te aguardo.
No marulhar desse oceano silencioso naquela noite,
No sítio onde se escondem todas as estrelas
Deslumbrada, aturdida, escravizada te espero. Mas tu não
vens.
Maria Fernandes
sábado, 23 de junho de 2012
Contemplação VIII
Sempre que o silêncio me abarca
mergulho neste estado contemplativo. Posso ficar assim durante horas. Às vezes
dou por mim, já vai a noite a cair. Quando desperto não recordo sobre que
pensamentos, ideias, emoções terei deliberado silenciosamente em minha mente.
Preocupo-me muitas vezes com a minha sanidade mental, não confio muito nela.
Tento acalmar-me com o facto de não haver historial de loucura na família,
embora esta possa não ser uma questão genética mas comportamental e resultado
do meio envolvente, realidade visceral.
Diante do meu olhar perdido, há
mil e uma visões, trezentos e cinquenta mil diálogos imaginários, oitocentos e
trinta e sete milhões de supostas situações, histórias de nada, de uma dimensão
a que ainda nem cheguei. Depois de acordar disto, tento lembrar o que em minha
ideia ia e de novo me vejo embarcar em novas ideias sobre a ideia que vinha
tendo e da qual não me consigo lembrar. E de sonho em sonho sobre ideias e
pensamentos em frente à minha janela me deixo embalar ao som do vento nas
árvores - o seu movimento faz-me ter a certeza de que afinal acordei algures na
minha manhã e desci ao 1º andar onde à secretária, diante da grande janela em
divagações me perco.
A poesia é tentativa normalmente
falhada de auto-explicação, explanação de mim mesma. Ora me suplanta, ora me
deixa em ânsia e desejo. Ora me preenche, ora me vaza. Coexistência raramente
pacífica que tanta vez me deixa em franja o que, diga-se de passagem, não é
difícil. E admiro-me que tanta gente goste, onde andei eu? Bem, na verdade não
acho que seja assim tão bom. Sou péssima a não ser Eu e raro do que crio não fica a metade.
Poucas vezes escrevi de forma tão
clara. Aqui e em qualquer lado, sabendo que alguém lerá, a tentativa de
mascarar o que sinto, o que penso, o que imagino com melodias, cores, sintaxes
e vírgulas distintas como que para engodo. Gosto de "labirintear" o
discernimento de quem lê, se ler e de "inventar" palavras como
"labirintear" a meio de um qualquer texto. Gosto que seja preciso ler
duas ou três vezes para começar a perceber, tal é a intrincada trama que lhe
adoro fazer inerente. Contudo, garanto que poucas vezes escrevi tão claramente
- dizendo realmente o que escrevo, com vontade e sem vontade de que me
perguntem nada. Já pensei e escrevi
sobre essa parte, não estarei a repetir-me. Ide à Contemplação V que tenho mais
que faça.
Não, não saiu poesia na oitava
parte da indefinida Contemplação em que tenho colocado meus despojos mentais -
às vezes saem bem adornados -, mas um não-sei-quê espécie de retrato actual da
minha visão e da certeza quanto ao ser real que me dão as árvores dançantes. E
saiu bem claro, de uma clareza ofuscante que nem eu percebo. Mas no texto me
fui e... eis-me chegada. Vencida pela insignificância do eco. Questionando
ainda se é Real ou Já Visto.
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)
sexta-feira, 22 de junho de 2012
A Hora Da Mentira
Desfazer-me de tudo, até da Identidade!
Despir-me de Ideias, pensamentos e ilacções.
Não opinar, não saber, não se revoltar!
Desfazer-me do meio metro à minha volta,
Vazar-me de Aura - não mais ser Eu.
Renunciar a todo e qualquer sentir
Apedrejar, pedra tornando-me à mais
Pálida sombra de emoção, - que se vá.
Que nada possuo, nem me possuo nem
Permito à alma que sonhe em te possuir.
Talvez, de novo, numa outra Terra, com um
Outro tempo e outro Sal, talvez então..
Não importe o papel que se tenha -
Apenas que se tenha um. Um dos Eternos, já agora, sff.
Que não tenha prazo de validade, que jamais expire irremediavelmente.
Que me escreva de Eros e me acaricie sem tocar.
Que me sussurre na noite ao cair e embalar.
Do penhasco atirar a Voz que em socalcos
Me amedrontava e retraía.
No final, nada mais lembra que a Hora da Mentira.
Maria Fernandes
Despir-me de Ideias, pensamentos e ilacções.Não opinar, não saber, não se revoltar!
Desfazer-me do meio metro à minha volta,
Vazar-me de Aura - não mais ser Eu.
Renunciar a todo e qualquer sentir
Apedrejar, pedra tornando-me à mais
Pálida sombra de emoção, - que se vá.
Que nada possuo, nem me possuo nem
Permito à alma que sonhe em te possuir.
Talvez, de novo, numa outra Terra, com um
Outro tempo e outro Sal, talvez então..
Não importe o papel que se tenha -
Apenas que se tenha um. Um dos Eternos, já agora, sff.
Que não tenha prazo de validade, que jamais expire irremediavelmente.
Que me escreva de Eros e me acaricie sem tocar.
Que me sussurre na noite ao cair e embalar.
Do penhasco atirar a Voz que em socalcos
Me amedrontava e retraía.
No final, nada mais lembra que a Hora da Mentira.
Maria Fernandes
Dissertação Mental
Não dizer nada. Não ter nada a declarar.
Furtivamente
atirar-me à mercê das palavras,
desfiar o novelo em que se instalou a minha mente.
Espraiar monólogos imaginários, encenar reacções.
Descrever, reescrever escrevendo todas as sílabas
De que me lembre de
existirem. Talvez invente
Uma ou outra.. ou uma palavra ou outra...
Mas sem dizer nada, nada de nada.
Armar redoma em mim mesma, não me sentir
A mim mesma. Sentir-me do exterior de mim mesma.
Como se houvesse uma nova versão de mim
A cada eternidade e todas acontecessem ao mesmo tempo.
Ainda assim, nada teria a dizer. Nada iria querer dizer.
Preferiria esvoaçar a mente silenciosa ao ritmo das teclas a
que hoje me rendo.
Na tecitura caracterizada estendo as vestes da insanidade
Coloco à vista impropérios indizíveis, perceptíveis a
meia-dúzia.
Que se lixe, respiro amanhã.
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Auto-Atestado de Insanidade
1.
Pergunto-me a cada
instante
Como é possível que
sinta ISTO.
Se ISTO nem palpável
é. Não tem cor.
Nem textura. É
invisível. Não é calor
O que deixa na pele,
é outra coisa.
Essa coisa é que ISSO
deve ser.
Embora nem nome lhe
dê.-
- Por inominável ser.
- Por impronunciável
ser.
Mas se ISTO não é
este nem
Aquele outro, que
será, então?
Macabra, medonha e
sinuosa
Forma, a que torna
por entre
Meus pianos dedos,
Sulcados e
atropelados dedos.
Que se ISTO nada é
como o
Sinto como tudo, como
todo?
2.
É absurdo, mas
imagino-te
Deambulando por esta
casa.
Vejo-te realmente
deitado
de bruços na minha
cama,
sentado à minha
secretária.
Conversamos com os
olhos,
Lemos poesia.
Nas manhãs
preparas-me
A dose dupla de café
E o chá, à noite. Tudo com ISSO.
3.
Não posso estar bem.
Fito por longas horas
o
Infinito à minha
frente e
Percebo que nada
estava a ver,
- Sonhava de olhos
abertos.
E vens tu, descendo a
escadaria
“heyyy..” – e logo
ISTO,
Que me abraça e
repele
E me deixa sem
respirar.
Ver-te é um
Mojito em Agosto,
Um absinto em Janeiro..
4.
Nas anímicas
Protuberâncias
do desalmado estado em que
nos fundimos, esvaimos e calmamente
voltamos ao mundo do
oxigénio,
demos de caras com a
evidência de nossas Inerências...
Tu voltaste ao mundo dos
vivos
Eu deixei-me ficar no
multiverso das sombras
Do meu desejo
excomungado..
Maria Fernandes
segunda-feira, 7 de maio de 2012
The Singing Bird
There´s a
singing bird in each moment that mite whispers
Every tear
made rock falling down this abyss
Is a
confession written in fire of unbelievable secret truths.
There´s a
singing bird in each moment that mite whispers
Impossible
truths of numbness and shaking through where my naked body,
Swinging
and stroller, absorbed indecent odes to The Flesh and it bites me on the inside,
Slowly
chews the meaning of the dream that I insist in not remembering.
Maria
Fernandes
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