sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Hora Da Mentira

Desfazer-me  de tudo, até da Identidade!
Despir-me de Ideias, pensamentos e ilacções.
Não opinar, não saber, não se revoltar!
Desfazer-me do meio metro à minha volta,
Vazar-me de Aura - não mais ser Eu.
Renunciar a todo e qualquer sentir
Apedrejar, pedra tornando-me à mais
Pálida sombra de emoção, - que se vá.


Que nada possuo, nem me possuo nem
Permito à alma que sonhe em te possuir.
Talvez, de novo, numa outra Terra, com um
Outro tempo e outro Sal, talvez então..
Não importe o papel que se tenha -
Apenas que se tenha um. Um dos Eternos, já agora, sff.
Que não tenha prazo de validade, que jamais expire irremediavelmente.
Que me escreva de Eros e me acaricie sem tocar.
Que me sussurre na noite ao cair e embalar.

Do penhasco atirar a Voz que em socalcos
Me amedrontava e retraía.
No final, nada mais lembra que a Hora da Mentira.


Maria Fernandes

Dissertação Mental


Não dizer nada. Não ter nada a declarar.
Furtivamente atirar-me à mercê das palavras,
desfiar o novelo em que se instalou a minha mente.
Espraiar monólogos imaginários, encenar reacções.
Descrever, reescrever escrevendo todas as sílabas
De que me lembre de existirem. Talvez invente
Uma ou outra.. ou uma palavra ou outra...

Mas sem dizer nada, nada de nada.
Armar redoma em mim mesma, não me sentir
A mim mesma. Sentir-me do exterior de mim mesma.
Como se houvesse uma nova versão de mim
A cada eternidade e todas acontecessem ao mesmo tempo.
Ainda assim, nada teria a dizer. Nada iria querer dizer.
Preferiria esvoaçar a mente silenciosa ao ritmo das teclas a que hoje me rendo.
Na tecitura caracterizada estendo as vestes da insanidade
Coloco à vista impropérios indizíveis, perceptíveis a meia-dúzia.
Que se lixe, respiro amanhã.

Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2015)


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Auto-Atestado de Insanidade



1.
Pergunto-me a cada instante
Como é possível que sinta ISTO.
Se ISTO nem palpável é. Não tem cor.
Nem textura. É invisível. Não é calor
O que deixa na pele, é outra coisa.
Essa coisa é que ISSO deve ser.
Embora nem nome lhe dê.-
- Por inominável ser.
- Por impronunciável ser.
Mas se ISTO não é este nem
Aquele outro, que será, então?
Macabra, medonha e sinuosa
Forma, a que torna por entre
Meus pianos dedos,
Sulcados e atropelados dedos.

Que se ISTO nada é como o
Sinto como tudo, como todo?

2.
É absurdo, mas imagino-te
Deambulando por esta casa.
Vejo-te realmente deitado
de bruços na minha cama,
sentado à minha secretária.
Conversamos com os olhos,
Lemos poesia.
Nas manhãs preparas-me
A dose dupla de café
E o chá,  à noite. Tudo com ISSO.










3.
Não posso estar bem.
Fito por longas horas o
Infinito à minha frente e
Percebo que nada estava a ver,
- Sonhava de olhos abertos.
E vens tu, descendo a escadaria
“heyyy..” – e logo ISTO,
Que me abraça e repele
E me deixa sem respirar.
Ver-te é um
Mojito em Agosto, 
Um absinto em Janeiro..

4.
Nas anímicas Protuberâncias
 do desalmado estado em que
 nos fundimos, esvaimos e calmamente
voltamos ao mundo do oxigénio,
demos de caras com a evidência de nossas Inerências...
Tu voltaste ao mundo dos vivos
Eu deixei-me ficar no multiverso das sombras
Do meu desejo excomungado..


Maria Fernandes


segunda-feira, 7 de maio de 2012

The Singing Bird


There´s a singing bird in each moment that mite whispers
Impossible truths of numbness shaking from one to the other side of these oceans.
Every tear made rock falling down this abyss
Is a confession written in fire of unbelievable secret truths.

There´s a singing bird in each moment that mite whispers
Impossible truths of numbness and shaking through where my naked body,
Swinging and stroller, absorbed indecent odes to The Flesh and it bites me on the inside,
Slowly chews the meaning of the dream that I insist in not remembering.

Maria Fernandes

sábado, 5 de maio de 2012

Stillness

I lay down and roll so cozy
As if it was my hole
Didn´t realised that
On this red light
There's a spark
That blows all dark souls.

From a whispered anthem
I cry now a nocturne
- The one dancing on a night so still
Brings back winds,
A taste of old pleasures.

Stillness by those trees
In desolate purple gardens
Whistling complete mantras,
Myths of other lifes
Where - I swear!- I saw
You breathing before.

And still, feels like forever
Each and every raindrop
From the waterfall in your skin.






sábado, 28 de abril de 2012

Há um Pássaro Cantante


Há um pássaro cantante em cada instante em que esse ácaro sussurra
Inverosímeis verdades de torpores e tremores de um e de outro lado destes oceanos.
Cada lágrima tornada rocha por esse abismo abaixo
É confissão lavrada em fogo de impossíveis verdades secretas.

Há um pássaro cantante em cada instante em que esse ácaro sussurra
Inverosímeis verdades de torpores e tremores por onde meu corpo nu
Baloiçante e passeante absorveu indecentes odes à carne e por dentro me morde,
Mastiga lentamente a conjuntura do sonho que teimo em não lembrar.



segunda-feira, 23 de abril de 2012

"Leva-me"

Como se diz um esvair de alma?
Acaso o surreal nos eleva?
Acaso o infinito nos alberga?
Ah, deixa que por aqui vá!
Nada cuides, que encruzilhadas,
Atalhos, trilhos e demais afins
Não serão capazes de desta seiva
Te arrebatar, te sugar, te sumir.
Se por mais completa que  a ti me dê
Toda essa parte é ínfima do que trago para te dar.
No dormente e completamente traço desse Rosto
Repousei o completo Ser, Diamante Tornado!
Rebolo, estendo-me, atiro-me
Não receio engolidoras vagas ou milhas de bytes.
Em todo o caso, o meu beat é o teu
Em toda e qualquer coordenada!

E sim! -  una, nua, crua e suada a teu regaço me atiro!
Banho-me  de cadências deliciosas da carícia do teu olhar
Um outro, obliterado no ofuscado túnel de turbilhões,
Na imensa teia sem medida....
Ah, de solto ar me entrego, sim! Imperiosa urgência
De em ti me embutir, de em ti me sentir
Daquela mesma forma que se adivinhou absoluta e intemporal..
Dir-se-á completamente um esvair de alma?
Completamente o surreal e o infinito que nos eleva e alberga, dir-se-á também?
Digamos, pois... - levo-te.