sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Máscara Inerte

Roubaste minha Máscara Inerte.
A que me deixa gélida.
Já vasculhei todos os recantos deste vestíbulo, e nada.
Só podes ter sido Tu. Só Tu lá estiveste,
Nem tens como negar!

Agora, desnuda de gelo, sou para sempre
Rival de arena dessa visão e dessa estranheza
Que é a naturalidade dos corpos trepando
Montanhas de emoção e tormentas.
E viver com isso!... Irresistível  tortura.

Já que não vieste, não venhas.
Escuso de procurar a Máscara.
Ou vem, se vens devolver o que, louco,
Usurpaste! Apartando todos meus seres,
Apartando-me também.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Biombo



Meu espírito tem resvalado para o etéreo nas últimas eras do Incontável Tempo. 
Como terão sido os nossos encontros nas nossas vidas passadas? Terá esse Inanimado
Capturado em suas camufladas esquinas (ou seriam escunas em Oceanos de Perplexidade?),
As cordas que nos suspendem acima desse mundiverso ?
Melodias que se movem, absolutamente silenciosas e de forma graciosa.  
Movimentos hirtos e fixos à tela do tal, o Incontável!

Se nesse apartamento deste meu espaço te resguardas Tu, Coisa Nenhuma,
Por aí, o melhor será que te quedes e não incomodes meu já sinistrado espírito.
Guarda nessa sombra de tabique que te dá o Sol, e não raras vezes a Lua, Coisas Nenhumas
Guarda as melodias moventes, cordas suspensórias, movimentos hirtos de intensidade e
Não te apoquentes que este torpor é de emoção. A de adivinhar-te 
Por detrás da face do que se vê e ter um vislumbre da rara beleza, talvez por entre alguma
Mal fechada frincha e possa ir já degustando a sensação de deslize por essas infindáveis
Cordas de luz que em algum Incontável Tempo nos fundiram e nos apartam, ora, volvidos milénios!

Bem melhor que te quedes, pois. Amo o desconhecido que abraças nesse Perplexo Oceano,
De Ilusão surreal, de céus flamejantes de onde chovem rochedos de fogo. E as Cordas.
“Está no biombo!” – é o eco infindável e ensurdecedor no Universo seguinte, o que albergas.
Neste mundiverso, a expansão chegou ao limite e estamos em decomposição avançada.
Se te ultrapassasse, Inanimado, ver-te-ia, Coisa Nenhuma. E às melodias moventes, que afinal
Eram verdade em ti e nos teus movimentos hirtos de suavidade que para sempre em rostos
Ficaram impressas. E talvez já não fosse eu. Talvez fosse outra, com voz parecida. E talvez não
Fosse o Segredo o que se adivinhou. Talvez fosse fascinante desilusão.


Maria Fernandes
The sound of goodbye screamming loud and slowly.
Those violet wheeping shores keep turning blue my deepest soul... and mind.
Oh please, leave me drowning in these tears - I'm sure they're not as salty as you.
I'm sure they'll wash away this mess you're letting me with. That taste of perfection... it can not be real. I wish it not to be real. I need you to be real

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Terra


O cheiro inebriante, à saída do túnel invade imediatamente todos os meus sentidos. O ar, repleto de memórias traz a Terra até mim, até ao mais recôndito da lembrança. Lembro de, em criança, num qualquer filme de época haver retido a ideia de que tudo se perde e ganha e de que para além de nós, do que construímos, sonhamos, criamos, ateamos fogo e até depois da nossa morte e da dos outros a Terra, essa, permanece -  muda de histórias e contos reais e imaginários, guardando em si vidas e umas quantas mortes, muitas.
Esse inebriante odor de Terra, de suor e trabalho. Das lágrimas que no leito castanho escuro basáltico foram mil vezes derramadas. Essas lágrimas perdidas, fundidas para sempre em grãos de matéria e criando a substância que educa gerações e povos. E culturas.

De cada vez que desse túnel surjo, vinda dos sítios onde julgo viver, uma onda de calor invade estas entranhas como que para contrariar o fresco, o frio desse lado. E revejo-me em crescendo. Em flutuando. Em cada passo que deixei perdido nessa Terra de ninguém, a minha. A rocha por cima de nós. O imperioso oceano, a nossos pés bradando aos céus imperceptíveis coisas perante nossa apatia. Que da Terra somos e dessa negra Terra somos feitos.

É bom senti-la escorrendo por entre os dedos, na sua voluptuosa queda de volta ao leito.
É bom moldá-la e vê-la tomando a nossa forma, a forma do nosso Eu, do nosso impaciente desejo de posse. Da urgente necessidade de ouvir essas vidas e mortes contidas e poder, enfim e em plenitude, entender o fio invisível e imensurável que nos liga, feito amantes eternos.


Maria Fernandes




segunda-feira, 7 de novembro de 2011

CONSTATAÇÃO

"Fornicaste-me a vida, seu filho de uma grande puta!" Dois anos volvidos e é esta a reacção, o pensamento primeiro à visão da tumba. "Ainda não passou", concluo. Foda-se.
Fui de encontro aos fantasmas e fizeram questão de que soubesse  que me viam chegar. Arrepio. Agora vou-me. Que apodreça de vez.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Vento não dava tréguas

E, aos poucos, a ventania parece
arrepiar-me as entranhas e meu
já alterado espírito torna-se Vento,
também. Nada mais que tu ocupa a minha
hesitantemente acutilante e analista mente.
Quando quis que o Vento alado me
soprasse, a ver se por algum fantástico desígnio,
meu espírito descansava de ti, como
que levando em seu sopro de voo
as palavras, todas que crio e descrio,
na busca (inútil!) de Te saber,
nada aconteceu!
 Todavia, lá no sítio para onde fogem todas as estrelas,
a calma foi avassaladora, o silêncio
cheio de frases ora com, ora sem nexo.
As sintaxes não foram necessárias,
são esdrúxulas ao nosso olhar.
Nem uma brisa, quanto mais um Vento Alado!
Foi uma qualquer Trégua que o Tempo
e a malfadada circunstância, benévolamente,
nos concederam... para que soubéssemos
quem fomos e quem somos.
E o Alado, depois, para que não esqueçamos.

Maria Fernandes

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Receio titular de "AMOR" (!)

Há um lusco-fusco
em que vislumbro
raríssima beleza de
profundidade inalcansavel, inaudível.
A felicidade é autêntica
ao dar-te de mim o tudo,
junto de todo o nada...
e que perfeito enlace entre o que se é
e o que se sonha, no infinito minuto
que de um e de outro bebemos!