quarta-feira, 16 de novembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Terra
O cheiro inebriante, à saída do túnel invade imediatamente todos os meus sentidos. O ar, repleto de memórias traz a Terra até mim, até ao mais recôndito da lembrança. Lembro de, em criança, num qualquer filme de época haver retido a ideia de que tudo se perde e ganha e de que para além de nós, do que construímos, sonhamos, criamos, ateamos fogo e até depois da nossa morte e da dos outros a Terra, essa, permanece - muda de histórias e contos reais e imaginários, guardando em si vidas e umas quantas mortes, muitas.
Esse inebriante odor de Terra, de suor e trabalho. Das lágrimas que no leito castanho escuro basáltico foram mil vezes derramadas. Essas lágrimas perdidas, fundidas para sempre em grãos de matéria e criando a substância que educa gerações e povos. E culturas.
De cada vez que desse túnel surjo, vinda dos sítios onde julgo viver, uma onda de calor invade estas entranhas como que para contrariar o fresco, o frio desse lado. E revejo-me em crescendo. Em flutuando. Em cada passo que deixei perdido nessa Terra de ninguém, a minha. A rocha por cima de nós. O imperioso oceano, a nossos pés bradando aos céus imperceptíveis coisas perante nossa apatia. Que da Terra somos e dessa negra Terra somos feitos.
É bom senti-la escorrendo por entre os dedos, na sua voluptuosa queda de volta ao leito.
É bom moldá-la e vê-la tomando a nossa forma, a forma do nosso Eu, do nosso impaciente desejo de posse. Da urgente necessidade de ouvir essas vidas e mortes contidas e poder, enfim e em plenitude, entender o fio invisível e imensurável que nos liga, feito amantes eternos.
Maria Fernandes
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
CONSTATAÇÃO
"Fornicaste-me a vida, seu filho de uma grande puta!" Dois anos volvidos e é esta a reacção, o pensamento primeiro à visão da tumba. "Ainda não passou", concluo. Foda-se.
Fui de encontro aos fantasmas e fizeram questão de que soubesse que me viam chegar. Arrepio. Agora vou-me. Que apodreça de vez.
Fui de encontro aos fantasmas e fizeram questão de que soubesse que me viam chegar. Arrepio. Agora vou-me. Que apodreça de vez.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
O Vento não dava tréguas
E, aos poucos, a ventania parece
arrepiar-me as entranhas e meu
já alterado espírito torna-se Vento,
também. Nada mais que tu ocupa a minha
hesitantemente acutilante e analista mente.
Quando quis que o Vento alado me
soprasse, a ver se por algum fantástico desígnio,
meu espírito descansava de ti, como
que levando em seu sopro de voo
as palavras, todas que crio e descrio,
na busca (inútil!) de Te saber,
nada aconteceu!
Todavia, lá no sítio para onde fogem todas as estrelas,
a calma foi avassaladora, o silêncio
cheio de frases ora com, ora sem nexo.
As sintaxes não foram necessárias,
são esdrúxulas ao nosso olhar.
Nem uma brisa, quanto mais um Vento Alado!
Foi uma qualquer Trégua que o Tempo
e a malfadada circunstância, benévolamente,
nos concederam... para que soubéssemos
quem fomos e quem somos.
E o Alado, depois, para que não esqueçamos.
Maria Fernandes
arrepiar-me as entranhas e meu
já alterado espírito torna-se Vento,
também. Nada mais que tu ocupa a minha
hesitantemente acutilante e analista mente.
Quando quis que o Vento alado me
soprasse, a ver se por algum fantástico desígnio,
meu espírito descansava de ti, como
que levando em seu sopro de voo
as palavras, todas que crio e descrio,
na busca (inútil!) de Te saber,
nada aconteceu!
Todavia, lá no sítio para onde fogem todas as estrelas,
a calma foi avassaladora, o silêncio
cheio de frases ora com, ora sem nexo.
As sintaxes não foram necessárias,
são esdrúxulas ao nosso olhar.
Nem uma brisa, quanto mais um Vento Alado!
Foi uma qualquer Trégua que o Tempo
e a malfadada circunstância, benévolamente,
nos concederam... para que soubéssemos
quem fomos e quem somos.
E o Alado, depois, para que não esqueçamos.
Maria Fernandes
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Receio titular de "AMOR" (!)
Há um lusco-fusco
em que vislumbro
raríssima beleza de
profundidade inalcansavel, inaudível.
A felicidade é autêntica
ao dar-te de mim o tudo,
junto de todo o nada...
e que perfeito enlace entre o que se é
e o que se sonha, no infinito minuto
que de um e de outro bebemos!
em que vislumbro
raríssima beleza de
profundidade inalcansavel, inaudível.
A felicidade é autêntica
ao dar-te de mim o tudo,
junto de todo o nada...
e que perfeito enlace entre o que se é
e o que se sonha, no infinito minuto
que de um e de outro bebemos!
Súbito
Uma qualquer mão
de algum mais ousado fantasma
ousa no negrume
perturbar meu espírito (des)usado
e sinto nas vísceras
o vómito estrangulado
de confusão, confissão e torpor...
Desfiladeiro imensurável e vertiginoso
onde deposito um beijo a render, juro!
Súbito relance e passo a (meta)estática,
se é que era verdade que em alguma altura
houve corpos que se misturaram e enrolaram
sem qualquer credo ou condição, ainda que
fosse imaginária. Melhor seria ter depositado
esse beijo à ordem - de ideias, de movimentos,
de sensações reais e pseudoreais
sem querer saber a que altitude estaria o fundo
do teu olhar. Ah, se pudesse!...
Se pudesse de súbito banhar-me
no verde do teu oceano! Assim, sem
estar à espera!... Como quem não quer a coisa!
E, no mesmo recado, dizer a teu coração escarlate
que me deixas ao rubro no súbito instante
que as mãos se comprimem e ouço o beijo
a estatelar-se ao fundo do vertiginoso desfiladeiro
verde da alma...
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)
de algum mais ousado fantasma
ousa no negrume
perturbar meu espírito (des)usado
e sinto nas vísceras
o vómito estrangulado
de confusão, confissão e torpor...
Desfiladeiro imensurável e vertiginoso
onde deposito um beijo a render, juro!
Súbito relance e passo a (meta)estática,
se é que era verdade que em alguma altura
houve corpos que se misturaram e enrolaram
sem qualquer credo ou condição, ainda que
fosse imaginária. Melhor seria ter depositado
esse beijo à ordem - de ideias, de movimentos,
de sensações reais e pseudoreais
sem querer saber a que altitude estaria o fundo
do teu olhar. Ah, se pudesse!...
Se pudesse de súbito banhar-me
no verde do teu oceano! Assim, sem
estar à espera!... Como quem não quer a coisa!
E, no mesmo recado, dizer a teu coração escarlate
que me deixas ao rubro no súbito instante
que as mãos se comprimem e ouço o beijo
a estatelar-se ao fundo do vertiginoso desfiladeiro
verde da alma...
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)
.....................
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não tenho palavras para a dor
é muda
não ouve
cerra-me os lábios
o coração em tropeços
a alma em farrapos
quem sou ou quem fui nunca jamais sequer contou em alguma equação cósmica efectuada por sei lá quem
quem fui ou quem sou
não sou eu
sou uma qualquer perdida ao redor de nada
nada me preenche e me vaza
a beleza horrenda me afronta
nada com que me defenda
deixo-me padecer
se por vezes parecer mais viva, não vos enganeis: é o nada que me faz vida
e é o nada que me mata
a ponto de nãp fazer diferença
se viva ou morta canto
..................
não tenho palavras para a dor
é muda
não ouve
cerra-me os lábios
o coração em tropeços
a alma em farrapos
quem sou ou quem fui nunca jamais sequer contou em alguma equação cósmica efectuada por sei lá quem
quem fui ou quem sou
não sou eu
sou uma qualquer perdida ao redor de nada
nada me preenche e me vaza
a beleza horrenda me afronta
nada com que me defenda
deixo-me padecer
se por vezes parecer mais viva, não vos enganeis: é o nada que me faz vida
e é o nada que me mata
a ponto de nãp fazer diferença
se viva ou morta canto
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