Uma qualquer mão
de algum mais ousado fantasma
ousa no negrume
perturbar meu espírito (des)usado
e sinto nas vísceras
o vómito estrangulado
de confusão, confissão e torpor...
Desfiladeiro imensurável e vertiginoso
onde deposito um beijo a render, juro!
Súbito relance e passo a (meta)estática,
se é que era verdade que em alguma altura
houve corpos que se misturaram e enrolaram
sem qualquer credo ou condição, ainda que
fosse imaginária. Melhor seria ter depositado
esse beijo à ordem - de ideias, de movimentos,
de sensações reais e pseudoreais
sem querer saber a que altitude estaria o fundo
do teu olhar. Ah, se pudesse!...
Se pudesse de súbito banhar-me
no verde do teu oceano! Assim, sem
estar à espera!... Como quem não quer a coisa!
E, no mesmo recado, dizer a teu coração escarlate
que me deixas ao rubro no súbito instante
que as mãos se comprimem e ouço o beijo
a estatelar-se ao fundo do vertiginoso desfiladeiro
verde da alma...
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
.....................
.......
não tenho palavras para a dor
é muda
não ouve
cerra-me os lábios
o coração em tropeços
a alma em farrapos
quem sou ou quem fui nunca jamais sequer contou em alguma equação cósmica efectuada por sei lá quem
quem fui ou quem sou
não sou eu
sou uma qualquer perdida ao redor de nada
nada me preenche e me vaza
a beleza horrenda me afronta
nada com que me defenda
deixo-me padecer
se por vezes parecer mais viva, não vos enganeis: é o nada que me faz vida
e é o nada que me mata
a ponto de nãp fazer diferença
se viva ou morta canto
..................
não tenho palavras para a dor
é muda
não ouve
cerra-me os lábios
o coração em tropeços
a alma em farrapos
quem sou ou quem fui nunca jamais sequer contou em alguma equação cósmica efectuada por sei lá quem
quem fui ou quem sou
não sou eu
sou uma qualquer perdida ao redor de nada
nada me preenche e me vaza
a beleza horrenda me afronta
nada com que me defenda
deixo-me padecer
se por vezes parecer mais viva, não vos enganeis: é o nada que me faz vida
e é o nada que me mata
a ponto de nãp fazer diferença
se viva ou morta canto
..................
De Roto a Esfarrapado
Já todos ouvimos falar, nem que fosse muito por alto, no Antigo Império Russo, na queda do czar, por aí adiante... (terão todos ouvido?) Aceitam-se como factos os dados históricos conhecidos mas será que as consequências dos acontecimentos que tiveram origem no início do século XX no seio da monarquia absolutista no Império Russo ou, se por outro lado, iriam lançar o país num sério declínio moral e humano antes de o guiar na direcção de se tornar uma das grandes potências mundiais?
Se é verdade que o Império Russo se encontrava economicamente devastado e atrasado em relação a outros países da Europa por altura do final da era czarista e que a revolução do início do século XX visou tirar o país dessa mísera condição e atribuir melhores condições de vida às populações, também é verdade que por estas alturas se lançaram as sementes que levaram à implementação de um regime ditatorial comunista liderado por Stalin, após a morte de Lenine, que fez milhões de vítimas, por via da forte perseguição a oponentes ideológicos.
A abolição da propriedade privada num Estado onde tudo é de todos, a cultura do "vamos lá repartir" é um belo ideal, mas... não funciona. Passou-se do oito para o oitenta. Por um lado tínhamos a Rússia Imperial liderada por um czar que detinha o poder de forma absoluta, onde uma das mais vastas populações do Mundo somente uma fina camada da população tinha boas condições de vida (os nobres). Por outro lado passámos a ter estado que tudo detinha mas que não tolerava ideias contrárias. É certo que a decadência da monarquia absoluta seria inevitável, mas seria este o caminho a percorrer?
Na minha humilde opinião, assumo-me contra qualquer Estado totalitário onde não sejam cumpridas as mais básicas directrizes dos Direitos Humanos. Tal como Saddam no Iraque ou Salazar em Portugal, a Russia teve um Stalin. Enfim... Terá valido a pena tudo aquilo para serem os primeiros a pôr um homem no espaço? Decididamente: NÂO. Disse.
Contemplação II
Gosto de assim quedar-me.
Bebendo da vista que alcança o olhar.
Saboreando cada esquina, cada pedra
como testemunhos que são de vida passada.
Cada momento em meu campo de visão
é uma viagem à contemplação de meu Eu
que deixei, encontrei, fui, voltei sem
jamais, nunca, mas nunca esquecer
que contemplo... o meu mundo.
Sorvendo do que o olhar me dá.
Revendo-me em cada brisa que sopra.
Segredando-me coisas de nunca e
de sempre, que nunca perdi, afinal.
Gosto de nada pensar.
Quedar-me, só. A olhar.
Mastigando e digerindo adjectivos e
nomes e cognomes que em honra
do que contemplo, irei escrever.
Gosto de imaginar o corpo do texto,
adivinhar os primeiros verbos.
Ao ver-te, o meu rosto transfigura-se.
Não sei em que tempo, em que ano ou era nos
podemos ter fundido. Numa qualquer altura
tal aconteceu, sei-o em cada longo olhar com
que nos deleitamos, de um e de outro.
Tudo o que me mostras é belo.
É belo o nosso olhar fundo.
Belo é o sentir-te. Dizer-te é belo.
E se um no outro repousamos,
é belo o repouso. O descanso que mais
não é o silêncio gritante de tudo,
o murmuramos, e é belo, sim!
Na rocha e no mar e no céu revi
o que escreveste e em meu
parado olhar marejaram comovidas
as lágrimas da bênção, que me comove a beleza.
E o coração latejante e o cérebro visceral
não são mais que correntes e túneis
que albergam os sorrisos, teus. Os olhos, os teus.
A emoção e a estranheza que é ver-te e ter-te.
E o querer-te como se não mais aurora nascesse...
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)
Bebendo da vista que alcança o olhar.
Saboreando cada esquina, cada pedra
como testemunhos que são de vida passada.
Cada momento em meu campo de visão
é uma viagem à contemplação de meu Eu
que deixei, encontrei, fui, voltei sem
jamais, nunca, mas nunca esquecer
que contemplo... o meu mundo.
Sorvendo do que o olhar me dá.
Revendo-me em cada brisa que sopra.
Segredando-me coisas de nunca e
de sempre, que nunca perdi, afinal.
Gosto de nada pensar.
Quedar-me, só. A olhar.
Mastigando e digerindo adjectivos e
nomes e cognomes que em honra
do que contemplo, irei escrever.
Gosto de imaginar o corpo do texto,
adivinhar os primeiros verbos.
Ao ver-te, o meu rosto transfigura-se.
Não sei em que tempo, em que ano ou era nos
podemos ter fundido. Numa qualquer altura
tal aconteceu, sei-o em cada longo olhar com
que nos deleitamos, de um e de outro.
Tudo o que me mostras é belo.
É belo o nosso olhar fundo.
Belo é o sentir-te. Dizer-te é belo.
E se um no outro repousamos,
é belo o repouso. O descanso que mais
não é o silêncio gritante de tudo,
o murmuramos, e é belo, sim!
Na rocha e no mar e no céu revi
o que escreveste e em meu
parado olhar marejaram comovidas
as lágrimas da bênção, que me comove a beleza.
E o coração latejante e o cérebro visceral
não são mais que correntes e túneis
que albergam os sorrisos, teus. Os olhos, os teus.
A emoção e a estranheza que é ver-te e ter-te.
E o querer-te como se não mais aurora nascesse...
Maria Fernandes, in Contemplações, Constatações e 30 Ventos (2014)
Rien
Se não recebi o que me deste
ou algo recebi sem que mo desses,
não julgues que por vontade minha tal ocorreu!
De facto, o que ficou, se algo ficou,
do que nos aconteceu, jamais terá sido produto
da minha insana imaginação ou do
que, lá nos confins do mais profundo da alma,
seria em algum tempo capaz de imaginar!
Enquanto isso, deixas que seja o silêncio a falar!
Permites que, ensurdecedor, diga a seu bel-prazer
o que lhe apeteça! Ah, como nos conhecemos tão bem!
Sabemos perfeitamente que sílabas são pronunciadas
no infinito dicionário de nossas emoções! Que nem ladaínha
- aprendida e apreendida - cantarolamos, sem saber,
frases sem nexo de bem querer, de calor e respirações
que clamam e cantam o que afinal, desde sempre soubemos!...
É belo, belo! Este ver-te e não te ver. Este ter-te e não te ter.
Todo o silêncio gritante dizendo histórias de nada e rasas de tudo!
O dizer-te e não te dizer. O querer-te e repudiar-te.
O desejar-te como se não houvesse amanhã.
Ser eu e ser tu como se dois fossemos.
Dou por mim no chão. Encontro-me estendida.
Da Luz, nem sinal.
De ti, nem um mal. Nem bem, também.
Nada.
ou algo recebi sem que mo desses,
não julgues que por vontade minha tal ocorreu!
De facto, o que ficou, se algo ficou,
do que nos aconteceu, jamais terá sido produto
da minha insana imaginação ou do
que, lá nos confins do mais profundo da alma,
seria em algum tempo capaz de imaginar!
Enquanto isso, deixas que seja o silêncio a falar!
Permites que, ensurdecedor, diga a seu bel-prazer
o que lhe apeteça! Ah, como nos conhecemos tão bem!
Sabemos perfeitamente que sílabas são pronunciadas
no infinito dicionário de nossas emoções! Que nem ladaínha
- aprendida e apreendida - cantarolamos, sem saber,
frases sem nexo de bem querer, de calor e respirações
que clamam e cantam o que afinal, desde sempre soubemos!...
É belo, belo! Este ver-te e não te ver. Este ter-te e não te ter.
Todo o silêncio gritante dizendo histórias de nada e rasas de tudo!
O dizer-te e não te dizer. O querer-te e repudiar-te.
O desejar-te como se não houvesse amanhã.
Ser eu e ser tu como se dois fossemos.
Dou por mim no chão. Encontro-me estendida.
Da Luz, nem sinal.
De ti, nem um mal. Nem bem, também.
Nada.
O Fundo Do Desfiladeiro
por Maria Fernandes a Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011 às 1:52
Gosto que fales desalmadamente. Dá tempo de reparar nas tuas micro expressões e de ver exactamente onde fixas o olhar enquanto falas. Volta e meia, olhas-me nos olhos, como me dando a saber que a tua atenção não se desviou de mim. Gosto da dinâmica que emprestas ao diálogo, sabendo evitar perguntas e deixando perceber que o estás a fazer! Depois completas com a acostumada brilhante dedução/raciocínio perfeito. Sarcasmo e ironia são tempero frequente! A provocação é, por vezes, afrodisíaca e, sempre, sensual. Nesses momentos é como se se abrisse uma fenda, uma espécie de janela entre mundos sensoriais. Deixo, por fracções de segundo, de te ouvir e passo a espreitar por aí, para o teu mundo sensorial. Progrido e vou descobrindo infindáveis sensações (seremos sensitivos?!). Depressa volto e continuas no mesmo assunto. Nessa vez olhaste-me nos olhos. É sempre uma aventura olhar os teus e procuro-os sempre que tenho o prazer de ver a tua cara. São belos e profundos, de um verde sobrenatural. Quando falas assim, sem alma, como quem faz ruído por o silêncio ser incomportavelmente gritante e raso de verdade, é quando mais se torna imperativa a necessidade de te olhar, de te ouvir e de ouvir o que tens para dizer e para dar, ainda que seja nada! Contudo o silêncio de hoje foi magnífico!! Disse-te tanto sem sequer mover os lábios ou sequer que me visses! Talvez prefira que não vejas mesmo ou prefiro não ver nada, eu... Falemos desalmadamente, os dois, então! A ver se lá no fundo se estatelam ansiedades e queixumes insanos e tiranos de nós mesmos e de um e de outro. Não nós, só tu e eu.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

