quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Rien

Se não recebi o que me deste
ou algo recebi sem que mo desses,
não julgues que por vontade minha tal ocorreu!
De facto, o que ficou, se algo ficou,
do que nos aconteceu, jamais terá sido produto
da minha insana imaginação ou do
que, lá nos confins do mais profundo da alma,
seria em algum tempo capaz de imaginar!

Enquanto isso, deixas que seja o silêncio a falar!
Permites que, ensurdecedor, diga a seu bel-prazer
o que lhe apeteça! Ah, como nos conhecemos tão bem!
Sabemos perfeitamente que sílabas são pronunciadas
no infinito dicionário de nossas emoções! Que nem ladaínha
- aprendida e apreendida - cantarolamos, sem saber,
frases sem nexo de bem querer, de calor e respirações
que clamam e cantam o que  afinal, desde sempre soubemos!...

É belo, belo! Este ver-te e não te ver. Este ter-te e não te ter.
Todo o silêncio gritante dizendo histórias de nada e rasas de tudo!
O dizer-te e não te dizer. O querer-te e repudiar-te.
O desejar-te como se não houvesse amanhã.
Ser eu e ser tu como se dois fossemos.

Dou por mim no chão. Encontro-me estendida.
Da Luz, nem sinal.
De ti, nem um mal. Nem bem, também.
Nada.

O Fundo Do Desfiladeiro

por Maria Fernandes a Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011 às 1:52
Gosto que fales desalmadamente. Dá tempo de reparar nas tuas micro expressões  e de ver exactamente onde fixas o olhar enquanto falas. Volta e meia, olhas-me nos olhos, como me dando a saber que a tua atenção não se desviou de mim. Gosto da dinâmica que emprestas ao diálogo, sabendo evitar perguntas e deixando perceber que o estás a fazer! Depois completas com a acostumada brilhante dedução/raciocínio perfeito. Sarcasmo e ironia são tempero frequente! A provocação é, por vezes, afrodisíaca e, sempre, sensual. Nesses momentos é como se se abrisse uma fenda, uma espécie de janela entre mundos sensoriais. Deixo, por fracções de segundo, de te ouvir e passo a espreitar por aí, para o teu mundo sensorial. Progrido e vou descobrindo infindáveis sensações (seremos sensitivos?!). Depressa volto e continuas no mesmo assunto. Nessa vez olhaste-me nos olhos. É sempre uma aventura olhar os teus e procuro-os sempre que tenho o prazer de ver a tua cara. São belos e profundos, de um verde sobrenatural. Quando falas assim, sem alma, como quem faz ruído por o silêncio ser incomportavelmente gritante e raso de verdade, é quando mais se torna imperativa a necessidade de te olhar, de te ouvir e de ouvir o que tens para dizer e para dar, ainda que seja nada! Contudo o silêncio de hoje foi magnífico!! Disse-te tanto sem sequer mover os lábios ou sequer que me visses! Talvez prefira que não vejas mesmo ou prefiro não ver nada, eu... Falemos desalmadamente, os dois, então! A ver se lá no fundo se estatelam ansiedades e queixumes insanos e tiranos de nós mesmos e de um e de outro. Não nós, só tu e eu.