quinta-feira, 20 de abril de 2017

Hora (sexta)



a Hora mansa e crua
            ocorre e

o cemitério escasseia já terra e
            mortos pululam amiúde
            deste lado das ondas em brasa

eis o amor primeiro

eis a dor última

desde aí, teus olhos
            são esgares

não me olhes, não me olhes
é que esta - não sou eu

(eu, sendo eu, agora mesmo
no supra-momento do olhar
das pessoas-memórias)

afaga-me afasicamente
o rosáceo e suave
          odor da morte

nisto, a infância
          perene e muda
aterrando (sobre) todos em volta
ungindo o ar com dedos pálidos
desenhando a cruz que todos trazem
balindo cangas de bichos falantes
e missais e turíbolos
e círios meio derretidos

nós – acenando à falsa fé dos dias

[ p a r a r   p a r a   r e ( i n s ) p i r a ç ã o ]

fui-me de Hora em punho
pelo limiar do ocaso
do dia velado

um recorte
da visão das lápides
         já em branco

os rostos vivos dos mortos
         sem nome nem dias

nem anos

são coisa nenhuma ao
paradoxo incerto e baptismal
do tempo em que não respirei

- aqui.




Maria Fernandes

20.04.2017